"DO TURBANTE AO VÉU"
(Frithjof Schuon, "Compreender o Islam")
A associação de idéias entre o turbante e o Islam
está longe de ser fortuita. "O turbante", disse o Profeta,
"constitui uma fronteira entre a fé e a descrença".
Ou ainda: "A minha comunidade jamais perderá a graça divina
enquanto observar o uso dos turbantes". Costumam também citar-se
os seguintes ahâdîth: 1) "No Dia do Juízo,
o homem receberá uma auréola de luz por cada volta de turbante
(kawrah) em torno da cabeça"; 2) "Usai turbante, pois assim
crescereis em generosidade". Aquilo que aqui desejamos salientar é
o fato de o turbante ser suposto conferir ao crente uma espécie
de gravidade, de consagração e bem assim de majestosa humildade
(No Islam, é hábito representar os anjos e todos os profetas
usando turbantes, por vezes de cores diferentes consoante o simbolismo
adotado). Ele resguarda-o das criaturas caóticas e dispersas - os
"errantes (dâllûn) da Fâtihah" -, fixando-o num eixo
divino - a "via da retidão" (eç-çirât el-mustaqîm)
da mesma prece - e destinando-o assim à contemplação.
Numa palavra, o turbante, à semelhança de um peso celeste,
opõe-se a tudo quanto é profano e vão. Como, para
nós, é na cabeça - no cérebro - que se situa
o plano da nossa opção entre o verdadeiro e o falso, o durável
e o efêmero, o real e o ilusório, o grave e o útil,
é precisamente esta que deverá ostentar a marca dessa opção.
O símbolo material é assim suposto reforçar a consciência
espiritual, tal como sucede, de resto, com todo o toucado religioso ou
até mesmo com toda a veste litúrgica ou meramente tradicional.
De certa forma, o turbante como que "envolve" o pensamento, sempre
disposto à dispersão, ao esquecimento e à infidelidade,
lembrando um pouco o aprisionamento sagrado da natureza passional e deífuga
(São Vicente de Paula, ao criar a touca das filhas da Caridade,
tinha por intenção impor no tocante a estas uma espécie
de reminiscência do isolamento monástico). A Lei corânica
faz-se eco da necessidade do restabelecimento de um equilíbrio primordial
perdido, donde o seguinte hadîth: "Usai turbantes, distinguir-vos-eis
assim dos povos ("desequilibrados") que vos precederam" (O ódio
do turbante, assim como o do "romântico", do "pitoresco",
do "folclórico", explica-se pelo fato de os mundos "românticos"
serem precisamente aqueles onde Deus ainda é verosímil. Quando
se pretende abolir o Céu, é lógico começar
por criar uma ambiência que leve a que as coisas espirituais surjam
como corpos estranhos. Para se poder afirmar com sucesso que Deus é
irreal, importa erigir em torno do homem uma falsa realidade, a qual será
forçosamente desumana, pois só o desumano pode excluir Deus.
Aquilo que está em causa é falsificar a imaginação,
logo, matá-la. A mentalidade moderna representa o mais prodigioso
exemplo de falta de imaginação que se possa conceber).
Impõem-se ainda aqui algumas breves palavras sobre o uso do
véu por parte da mulher muçulmana. O Islam separa com extrema
rigidez o mundo do homem do mundo da mulher, a coletividade no seu conjunto
da família singular, seu núcleo primordial, a rua, espaço
aberto, do lar, espaço fechado, tal como separa com idêntica
rigidez a sociedade do indivíduo e o exoterismo do esoterismo. O
lar - à semelhança da mulher que o encarna - possui um caráter
inviolável, logo, sagrado. De certa forma, a mulher encarna mesmo
o próprio esoterismo, designadamente em virtude de certos aspectos
da sua natureza e função. A "verdade esotérica"
- a haqîqah - é "sentida" como uma realidade
"feminina", algo que também sucede, aliás com a barakah.
De resto, o véu e a reclusão da mulher relacionam-se com
a fase cíclica final que hoje em dia vivemos - e em que as paixões
e a malícia se tornam cada vez mais dominantes -, apresentando uma
certa analogia com a interdição do vinho e a ocultação
dos mistérios.