SUHBAH SOBRE SUHBAH

 
(Shaykh Adnan al-Kabbani an-Naqshband, Pearls and Coral: The Path to the Divine Presence)
 
Tradução: Márcia Melo Galliez
 

"Tariqatuna as-suhbah wa-l khayru fi-l jama’iia" - "Nosso caminho consiste na associação e na benção ou bem que será encontrado na conexão" Shah Naqshband. Suhbah significa uma Associação ou Assembléia em que pessoas reúnem-se para concentrar-se num ponto, num objetivo.
 Algumas pessoas acham que nunca encontrarão nenhuma maldade ou conflito em lugares como a sagrada Makka, e que não presenciarão tais coisas em frente à Kaaba. Entretanto, quem já visitou esses lugares sagrados sabe que não é bem assim. Esses lugares sagrados, talvez até mais do que outros lugares, trazem à tona estas coisas que pertencem a um mundo diferente; não ao mundo dos espíritos e anjos, senão ao mundo dos animais.
 Então, quando se entra ou se tem a intenção de começar a trilhar um caminho como o dos Sufis, não importa que as dificuldades e problemas surjam. O que é importante é que, pela primeira vez, você pode saber porque essas dificuldades e problemas ocorrem, e com que propósito. Esta é a diferença. Normalmente as pessoas sofrem não pelo que acontece a elas, mas na maioria das vezes por não compreenderem porque esses sofrimentos vêm, e com que propósito.
 Sendo assim, as pessoas que estão tentando seguir um caminho espiritual devem compreender, devem saber que pertencer a tal grupo não significa que estão automaticamente à salvo uns dos outros. Porque nós sabemos que um dos caminhos de Alláh, Glorificado e Exaltado seja Ele, uma das suas mais famosas formas de testar Seus servos, é testá-los colocando-os uns contra os outros. Isto acontece tanto dentro, como fora da tariqah, mas de certa maneira é mais evidente dentro da tariqah, pois ali não se espera que isto ocorra. Ao mesmo tempo, a pessoa tem que compreender e aprender a lidar com isto. Mais uma vez, o que acontece dentro da tariqah é apenas um exemplo do que se passa em todos os lugares, porém lá, é mais evidente. Isto porque nós devemos estar acordados, e não dormindo, quando estamos seguindo um caminho espiritual. Se não quisermos seguir, podemos dormir, pois então não importa. Mas se estamos tentando seguir tal caminho, não devemos dormir. Não é permitido. E se isto acontece, rapidamente devemos tentar acordar.
 Às vezes, falamos aqui genericamente sobre todas as pessoas; vindo de qualquer lugar ou indo para qualquer lugar. Às vezes, há algo importante que precisa ser dito sobre eventos ou coisas específicas. Mas qualquer coisa que seja dita tem que ser útil e benéfica. Não estamos falando aqui para impressionar às pessoas com conhecimento.
O propósito do suhbah ou de se falar em suhbah, reside em dois aspectos. Um, é para dizer algo benéfico para as pessoas e que possa ajudar em alguma situação específica delas, e que talvez seja útil para todas ao mesmo tempo. O segundo propósito de se falar em suhbah, é pedir a Alláh para trazer nessas pessoas que estão sinceramente ouvindo e estão acordadas, e não dormindo, uma abertura em seus corações, de forma que lhe possam advir benções. Que elas possam sair de tal reunião com benções de Alláh, de Seu Profeta (s.a.w.s.), e dos abençoados Grandes Shuyukh (pl. de Shaykh) da Tariqat Naqshbandiya. Que essa benção possa penetrar em seus corações e ajudá-las neste caminho.
 Agora, gostaríamos de dizer alguma coisa sobre o significado de estar em suhbah, e o que significa sair de suhbah, ou violar as regras de suhbah. Este é um conselho para todos em geral, e para algumas pessoas em particular. Eu vou mencionar para vocês  algo do nosso Grande Shaykh Umar al-Suhrawardi Awarif al-Maárif. Ele está falando sobre o que significa quando alguém diz: "Eu sou um Sufi". Em nossos dias, muitas pessoas não compreendem mais essa expressão, e estão julgando, criticando e condenando sem compreender. Assim, elas podem beneficiar-se de suas palavras. Porém, suas palavras são igualmente importantes, tanto para aquelas pessoas que estão seguindo, quanto para as que pretendem seguir um caminho espiritual, um caminho Sufi.
 Na tradição do Sufismo, sempre houveram lugares específicos, nos quais os Sufis viviam. Se você for a Konya, na Turquia, e visitar a tumba de Mawlana Jalaluddin Rumi (possa Alláh estar satisfeito com ele), verá que junto à tumba, há uma grande casa, com muitos, muitos cômodos. Nestes cômodos viviam seus discípulos - e os discípulos de outros shuyukh da tariqah Mevlevi. Isso existia também em outras turúq (plural de tariqah), mas não em todas.
 Na tariqah Naqshbandiya, os shuyukh nos dizem que a construção de tais casas não constitui um princípio desta tariqah. Por que não? Qual é a sabedoria que está por trás disto? O que representa tal casa? Significa que as pessoas que estão seguindo um caminho espiritual vivem juntas numa casa. Seguem regras específicas, que são as regras dessa casa. Elas estão sob o comando do mestre da casa. Tal casa pode ter paredes, um teto e um chão de pedra, mas não é necessária. Destina-se apenas às pessoas que necessitam de tais paredes, e tal teto, e tais pedras, a fim de verem aonde estão. Tais casas foram construídas e podem ser construídas novamente. Contudo, para alguém que compreende o que significa viver numa casa, estar juntos e seguir as regras da casa, andar neste caminho espiritual sob a orientação do mestre da casa, esse alguém não necessita de tais paredes. Agora, na tariqah Naqshbandiya, quando não temos essas casas, ou não somos encorajados a tê-las, não significa que inexistam. Significa que seus Shuyukh e seus muridin (pl. de murid) sabem, sem terem de ser lembrados por pedras, que eles estão vivendo em tal tipo de casa. Nossa casa é a tariqah. Essa casa tem regras de convivência uns com os outros. Se alguém não segue as regras da casa, algo acontecerá. Pode ser que seja afastado por algum tempo, talvez ele seja colocado num cômodo diferente, ou lhe seja dito: "Retire-se, até que você tenha permissão de voltar." Não há casa alguma sem regras. Deve-se conhecê-las e obedecê-las. A casa Naqshbandiya é chamada suhbah. Esta é a casa da tariqah. Se você está em suhbah, você está na tariqah Naqshbandiya. Se você está aceitando as regras de suhbah, você está vivendo nessa casa, sob os olhos e supervisão do Shaykh. Se você está violando estas regras, está violando as regras da casa. Portanto, nós devemos conhecê-las. Não importa se a casa é material ou não. Isso só é necessário para pessoas que precisam compreender através de tais coisas, mas nem todo mundo necessita disso. Um seguidor da tariqah Naqshbandiya deve compreender sem elas.
 Quando visitamos Mawlana Shaykh Nazim em Lefke, Chipre, vemos a casa de hóspedes e a do Shaykh. Mas não pense que quando você sair de Chipre, você não estará mais na casa do Shaykh. Não importa aonde você esteja. Esta casa está em todo lugar.
Agora, o que é dito aqui pelo Shaykh Umar Suhrawardi é sobre tais pessoas vivendo em tais casas. Talvez vocês saibam que a palavra Tasawwf ou Sufi, tem muitos significados, e cada um encerra alguma sabedoria. Alguns dizem que vem de suf - lã -, ou da palavra árabe para pureza. Shaykh Umar Suhrawardi está dizendo aqui que o nome origina-se de Ahl as-Suffah ("as pessoas do banco"; "parte das compridas colunas de Mesquita (de Madina) estava reservada para os recém chegados, que não tinham onde morar e careciam de meios de subsistência. Eram conhecidos dessa forma por causa de um banco de pedra que foi colocado ali para seu proveito, já que a Mesquita era um prolongamento da própria moradia do Profeta (s.a.w.s.). Ele e os membros de sua casa se sentiam especialmente responsáveis por este número crescente de refugiados empobrecidos que viviam na sua própria porta, de cuja condição eram diariamente testemunhas. Chegavam de um em um, de dois em dois, vindo de todos os lugares, arrastados pela mensagem do Islam e pelas notícias sobre ele (o Profeta Muhammad (s.a.w.s.)) e sua comunidade..." - "Muhammad", de Martin Lings). Quando alguém diz isso, deve-se compreender o que significa: quem foram os Ahl as-Suffah, e o que isto significa para alguém que está clamando ser um Sufi, e que está vivendo sob o nome destas pessoas. Há um hadith do Sagrado Profeta (s.a.w.s.) que diz: "As almas são como exércitos reunidos, aquelas que conhecem umas às outras, concordam entre si. Aquelas que não se conhecem, discordam."
 E há uma afirmação similar de Sayydina Ali, (alayhi wa salam!): "O que você conhece, você ama; e o que você ignora, você odeia". O hadith do Profeta (s.a.w.s.) diz o mesmo: "Aqueles que se conhecem, concordam uns com os outros, eles se juntam, se reúnem, estão em suhbah. Aqueles que não se conhecem, discordam".
 Agora, Shaykh Suhrawardi disse: "Através do suhbah, as vidas interiores dos Sufis são reunidas e suas almas (anfaas - plural de nafs) são mantidas em limites." Por que? Porque estando em suhbah, eles estão se olhando, observando um ao outro, de acordo com o hadith de que o crente é um espelho para o crente. Quando em suhbah, os olhos destas pessoas estão uns sobre os outros. Todo mundo é o espelho do outro, portanto suas almas são mantidas em limites. Como Mawlana Shaykh Nazim disse um dia: A razão pela qual estamos sentados juntos é que isto é um treinamento do lado ruim do nosso ego, nosso nafs-al-lawwaama. Normalmente, o que nosso eu feio, nosso nafs prefere, é ser notado, exibir-se, ser diferente, ser alguém, ser mais. Entretanto, enquanto estamos sentados juntos, ninguém é mais do que o outro. Certamente, algumas vezes isto torna-se muito difícil, e assim um ou outro tem que se exibir. Mesmo em tal suhbah (associação), ele tem que sobressair. O propósito de suhbah é manter o nafs em seus limites. Toda vez que uma dessas pessoas que está sentada em suhbah evidencia um traço de aparecer, de querer aparecer, sobressair-se, ela deve ser trazida de volta. Pois, o sobressair-se ou querer aparecer ocorre quando o nafs quer vir à tona. O sobressair-se origina-se da perda do "agora", "hudur", presença. Aqui, presença significa Presença Divina. Estar na Presença Divina não significa estar em algum outro lugar, na lua. Significa estar aqui e agora. Isto deve ser aprendido, mantido, e deve-se praticar o estar sempre no agora, presente. Quando você perde o agora, o momento, a primeira coisa que ocorre é que você tem que aparecer: "Eu estou aqui. Você me vê? Todo o mundo está me notando? Sim? Todo o mundo repara no que estou dizendo, e qual é a minha aparência?" Toda vez que estamos perdendo nosso dhikr, nossa lembrança, toda vez que estamos desconectados mesmo por um segundo, imediatamente o ego pula e quer ser notado. Portanto, toda vez que o nafs de uma destas pessoas quer ser notado, o outro sabe que ela saiu do círculo do suhbah. E ela deve ser trazida de volta. É muito duro para nosso ego não ser especial, ser apenas um entre muitos. O nafs está esperando que alguém perca esta vigília de forma a poder rapidamente pular. Uma das mais conhecidas formas de querer ser notado é através da raiva e inimizade para com os outros, mesmo para com um irmão ou irmã da tariqah. Nunca esteja muito seguro de si mesmo; nunca pense que você não está fazendo coisas para ser notado. Quem não faz isso? Quantas das coisas que dizemos ou fazemos não são com esse propósito? Uma, duas? Quantas? O que você fala pode ser encapado ou embalado de algum interesse "profundo", mas pergunte a si mesmo ou a seu coração, porque estás falando ou agindo. Ninguém está à salvo dos seus egos, até ter atingido a estação da segurança. Até então, isto pode ocorrer a qualquer momento e em muito menos que um segundo, mais rápido do que você pensa. Algumas vezes, nós somos até surpreendidos por nós mesmos ao nos depararmos falando e agindo de uma tal maneira! Nós estamos dizendo: "Por que estou fazendo tal coisa? Por que estou falando desse jeito?" O pensamento é muito lento para se dar conta. O ego viaja mais rápido do que o pensamento! Tentamos compreender, e já aconteceu. Portanto, mais importante do que pensar, é ficar acordado. Mas o que iremos fazer? Quando o nafs do Sufi dá um passo para fora, quer ser notado através da raiva e inimizade para com um irmão ou uma irmã, ficando zangado com o outro, atacando a alguém (esta é a forma mais famosa de ser notado: criticando, culpando e ficando zangado). Quando isso acontece, quando o nafs quer ser notado, o dever do irmão/irmã acusado ou criticado é ir de encontro à alma da pessoa que se opõe a ele com seu coração. Isto é muito importante. Quando alguém o ataca ou o critica desde o seu eu egoísta, seu ego, seu nafs, não se oponha com seu nafs, porque quando isso acontece, vocês estão em guerra. Está quase pegando fogo. Esta é uma regra que todo mundo deveria escutar, porque podemos usá-la a qualquer momento. Quando alguém o está atacando ou criticando, desde o nafs dele, vá de encontro a ele/ela a partir do seu coração, não do seu ego. Não gritando em retorno, criticando em retorno. Isto não ajuda em nada. Isto só coloca os dois de fora. Se você está dizendo que você é parte deste suhbah, enquanto você está na casa do suhbah, enquanto você estiver se contando como um seguidor deste caminho espiritual, saiba que esta casa tem suas regras. E toda vez que você encontra um irmão, aonde quer que você o encontre, seja quando for que isto aconteça, primeiro preste atenção em si mesmo. Não tente pular ou atacar. Quando você é atacado ou criticado por alguém, por irmãos ou irmãs, não devolva a partir do seu ego. Você deve ir de encontro  com seu coração. Por que? Quando você vai de encontro ao nafs com o coração, ele perde o chão. Ele não sabe o que fazer. Ele fica encantado. Mas se você contra-ataca nafs com nafs, então a guerra começa e a proteção contra o mal desaparece. Não há mais segurança contra o mal de um para o outro. Alláh diz:  "Fa idfa’billati hiyya ahsanu, fa idha alladhi baynaka wa baynahu ‘adawatun ka annahu waliyun hamin. Wa ma yulaqaha illallathiina sabaru wa ma yulaqaha illa dhu hadhin adhim." - "Envie aquilo que é o melhor para repelir o mal, e então aquele entre vocês que é seu inimigo irá se tornar seu melhor amigo. E ninguém pode fazer isto, exceto aqueles que acreditam nisto, e ninguém pode realizar isto, exceto através de grande batalha". Alláh, o Mais Cheio de Graça, diz a Verdade neste verso. Este é o significado deste verso. Isto é para tais pessoas. Se você não está seguindo a tariqah, e alguém está lhe fazendo algum mal, não seria ético bater de volta, mas às vezes isto é permitido. Mas você não tem permissão para isto, não há permissão para isto, pois você está viajando no caminho espiritual. Quando você afirma "eu sou do povo Sufi", então este verso se aplica a você. Todos vocês, ou muitos de vocês, conhecem Shaykh Nazim. Vocês se dão conta com que frequência ele recita este verso? Empurre alguma coisa ruim através de algo melhor. O que é melhor? O coração é melhor que o nafs.
 Às vezes também pode acontecer que um dos dois reclame com o Shaykh. Eles estiveram se agredindo durante certo tempo, e então um deles diz: agora nós temos que falar com o Shaykh sobre o que está acontecendo. Então o Shaykh vai admoestar um deles, realmente não importa qual deles. Por que? Porque os dois estão errados. O Shaykh pode admoestar um dos dois, mas ele poderia escolher qualquer um, porque isso realmente não importa. Ambos quebraram o "círculo" de suhbah. Um, através do ataque para sobressair-se, e o outro, respondendo a este ataque a partir de seu ego, de seu nafs. Este é um conselho prático, importantíssimo em geral, e em particular para alguns de nós aqui.
 Estas são as duas regras principais de comportamento para suhbah. "Tariqatuna as-Suhbah." Estas são as regras dos seguidores desta tariqah. Estas são as regras de todo povo Sufi verdadeiro, as pessoas que estão modelando suas vidas no Ahl as-Suffah. Isto aqui também é um suhbah, mas não é um suhbah apenas porque estamos sentados aqui no chão. Para se estar em suhbah tem-se que cumprir as regras do suhbah. Você pode estar aparentemente sentado aqui, e na verdade, estar em outro lugar. O ponto é estar aqui, estarem uns com os outros, o estar sob a supervisão do seu Shaykh. Isto é suhbah. Não apenas sentar aqui, dormir, olhar ao redor, ou brincar. Estar aqui com atenção, estar acordado.
 Os Sufis estão vivendo em suhbah. A vida deles consiste de suhbah. Todos eles têm o mesmo objetivo, a mesma intenção, mas eles estão em diversos estados. Todos estão em estados diferentes, mas os estados deles estão afinados com cada um dos outros. Quando nós estamos em suhbah, não significa que eu tenha problemas diferentes dos outros, ou meu caráter é diferente do daquele outro, ou eu cheguei com idéias diferentes daquele outro, não pense que você é alguma coisa por si mesmo. Não. Todos aqueles que estão se reunindo neste suhbah, quaisquer que sejam suas diferenças, estão "afinados" uns com os outros. O objetivo de suhbah é estar um com o outro, como Alláh o descreveu: "Wa naz’ana ma fi sudurihim min ghillin ikhwaanan ‘ala sururin mataqaabiliina" -  "Nós devemos arrancar fora todo rancor que esteja em seus peitos, como irmãos, eles devem estar sentados em almofadas, colocados face a face".
 Shaykh Umar Suhrawardi comentou: "O face a face ocorre quando o lado interno oculto e o lado aparente exterior são o mesmo." Sim, todo mundo observa o outro, todo mundo tem uma aparência, mas esta aparência é a mesma da que você está mantendo internamente? Ou você está mantendo alguma outra coisa internamente? Quando você senta com alguém em algum lugar, em suhbah, e você tem um lado exterior que está dizendo uma coisa, e o seu lado interno está dizendo uma outra coisa, será que você está em suhbah? Não. Você não está sentando face a face, porque você tem uma outra face. Uma face virada para cá, uma outra face virada para algum outro lugar. Uma face amigável e uma outra face que está em inimizade. Isto não é suhbah. Você está sentado face a face quando o lado interno, o qual está oculto da vista das pessoas comuns, é o mesmo ou parecido com o lado exteriorizado. Não há diferença. Não duas pessoas sentadas em frente a mim, mas apenas uma pessoa. Então eu estou sentado face a face, e assim estamos em suhbah. Quando isto não acontece, então este suhbah se quebra. Se, contudo, alguém mantém em seu peito uma emoção oculta contra um irmão ou irmã, então não há face a face, mesmo quando sua face está virada para o outro. Uma face nesta direção e a outra face numa outra direção, e sentados, um em frente ao outro, falando sobre religião, Sufismo, e tariqah e não sei o que mais. Você deve compreender e não deve tomar essas coisas muito corriqueiramente e ficar brincando com elas.
"Tariqatuna as-suhbah". Vocês devem estar uns com os outros, encarando uns aos outros. Seu lado interno como seu exterior, em direção ao seu irmão/irmã. Os Ahl as-Suffah, como o Al-Qur'an nos conta, eram assim. Este é um dos significados de Ahl as-Suffah. Eles estavam abertos uns para com os outros, abertos uns com os outros, sem rancores: pois o rancor e a raiva são trazidos à tona através do amor de dunya (o mundo da existência). Pelo amor de dunya, não pelo amor de akhira (o mundo do além), não pelo amor de Alláh, não pelo amor da religião ou pelo amor da tariqah. Se isto ocorre mesmo entre as pessoas Sufis, ocorre pela mesma razão. Não importa que palavras são utilizadas. Estamos falando sobre realidades. Se você está sentado em suhbah e isto ocorre, isto surge do amor de dunya. Se você sente raiva ou algum rancor para com um de seus irmãos ou irmãs, isto vem do amor de dunya. E isto não é permitido para o povo Sufi, e especialmente, não é permitido para o povo Naqshbandiya. Pois rancor e raiva são trazidos pelo amor de dunya, e o amor de dunya é a origem e a fonte de todo o mal.
 O povo de suhbah está face a face, o dentro e o fora, reunidos em familiaridade e amor. Eles se encontram para falar juntos, e para comer juntos, e desta forma eles esperam receber a benção de seu Senhor, se eles estão seguindo as regras de suhbah. Se não estão seguindo suas regras, não há benção. Está documentado que alguém disse ao Profeta (s.a.w.s.): "Rasul-Alláh, nós comemos, mas nossa fome nunca é saciada." Ele respondeu: "Talvez vocês comam separadamente. Reunam-se, e recordem-se de Alláh, e vocês serão abençoados."
Bi hurmati l-Habibi, bi hurmatil Fatiha.
(Pelo amor do Amado de Deus, conclua lendo a sura Al-Fatiha), o primeiro capítulo do Alcorão.
Questões:
SM: Você disse, "O crente (mu’min) é um espelho para seu irmão". No caminho isso é muito importante. Deveria ser que eu vejo a mim mesmo através de você. Você me vê...
Sh.Adnan: Quando você me olha, você se vê?
SM: Bem, isto é o que eu estava ponderando. E também...
Sh.A: Ou você está me vendo?
SM: Eu vejo você!!! (risos)
Sh.A: Mas você não deveria me ver, porque eu sou apenas um espelho!
SM: Isto é o que eu quero dizer. Dizer ao outro o que está errado nele é parte de ser um espelho.
Sh.A: Não! Você não tem que dizer nada. Você só tem que olhar. Você deve só olhar. Ou eu tenho que olhar. O espelho não fala. Ele só espelha. Sim. Eu não tenho que te dizer coisa alguma. Você apenas tem que olhar para mim para se ver. É assim para qualquer um. Se eu começar a falar e dizer coisas para você, então você vai ficar muito interessado em mim... Você não está mais se vendo. Se eu sou um espelho, e o hadith diz: Os crentes são espelho. Não todo mundo. Nós somos espelhos imperfeitos. Os shuyukh e os awliya (pl. de wali, "amigo de Alláh", "dileto de Alláh") são os espelhos verdadeiros. Eles são espelhos perfeitos. Por que? Porque eles são desprendidos. Quando você olha para eles, você só vê a si mesmo. Isto se você for um crente. Se você não acredita o suficiente, você pode até olhar para Mawlana Shaykh Nazim e não se ver. Esta é a diferença. O espelho não tem que criticar, que dizer alguma coisa. Ele deve só estar lá, limpo, e refletir. Todo mundo sabe, nós sabemos o que estamos fazendo, mas nós facilmente nos distraimos e olhamos para outras coisas, e elas nos fazem esquecer de nós mesmos. Mas quando você olha para um crente, você não pode escapar de si mesmo. Ele está justo na sua frente, como Shaykh Suhrawardi disse, porque seu lado interno é como seu lado exterior. Ele não tenta se esconder. Ele está apenas parado em sua frente, e você olha e vê. Você se vê. Isto é muito importante. Você deveria aprender também que o que você vê, não é o outro, é você mesmo. Assim, novamente, não critique! Olhe para si mesmo.
SM: As falhas que você vê no outro, na verdade,  são suas...
Sh.A: Claro.
Que isto possa ser benéfico. Por favor, reze por nós.