a) "Escute a Ney (a flauta) que lamenta e tenta narrar a história
do desterro."
b) Ney ou Nay = "a flauta de cana/ junco", era conhecida muito antes
de Rumi como um instrumento, com sua voz de lamentação. O
Krishna dos Hindues tocava flauta, intoxicando pessoas e animais. O poeta
Khusrau de Delhi, contemporâneo de Rumi (cujo pai também se
originava da Ásia Central e pertenceu a tribo Turca "Lachin"), expressou
as seguintes linhas:
"Eu choro e lamento como a Ney, pois meus ossos tornaram-se vazios
e secos como a Ney."
Rumi usa a Ney de uma maneira inteiramente metafórica. Ela representa
o homem que foi abandonado e privado da presença de seu Amado= Alláh.
A Ney (pedaço de cana) que foi arrancada de sua origem (a raiz
da cana), chora e lamenta; assim como o corpo de um homem que foi preenchido
com o Sopro Divino (espírito) e está vazio de si mesmo.
Mais adiante diz:
a) "Desde que fui arrancada da minha raíz, meus lamentos tem
deixado homens e mulheres em profundo desespero."
b) "Raíz" (da cana) aqui significa um lugar onde o espírito
sagrado do homem habitou. A cana é alimentada pela doce água
de um lago ou córrego, assim como o espírito de um homem
é alimentado pelo Afeto e Perdão Divino. Se a cana é
desprovida de água, ela seca. Igualmente, se um homem é desprovido
do Perdão Divino, seu espírito se torna frágil e desprotegido.
Quando um homem é afastado de Alláh, como Adão, a
quem lhe foi dado orifícios - orelhas, boca, olhos, nariz , etc...,
como os orifícios da Ney, seu espírito sente-se enjaulado
em seu corpo físico e começa a vibrar da mesma forma que
o sopro na Ney. Portanto qualquer pessoa , seja um homem ou
uma mulher, começa a sentir piedade dela.
a) "Aquele que abandonou a sua Origem, procura por uma oportunidade
para retornar."
b) Essa é uma regra geral, de que tudo no universo tende a seguir
em direção de sua Origem. Um homem é impaciente
e infeliz quando se sente atraído para o Centro, como no Al-Qur’an:
" De Alláh você veio, para Ele deverá retornar." Então,
não dependa muito de prazeres temporários deste mundo de
modelos e formas, porque eles são como sinais de trânsito
que levam até Alláh. Não se encante pela beleza desses
sinais e fique cravado, imóvel. Tente alcançar o real objetivo,
a Proximidade de Alláh, onde a verdadeira felicidade espera por
você; em religião, chamado "Paraíso".
Desafortunadamente, aqueles que se afastaram do Centro, vão
incompreender o prazer da Intimidade Divina. Como pessoas que não
são capazes de apreciar os sentimentos daqueles que sofreram o desterro.
Assim, Rumi diz:
a) "Eu quero alguém com peito perfurado (cravado e cheio de
dores) como o da Ney, para que possa contar a ele sobre as (insuportáveis)
dores de meus desejos."
b) Uma pessoa que ama Alláh e sente solidão, consegue
entender o lamento da Ney, porque ele também tem um peito perfurado
e cheio de dor. De qualquer forma, a Ney pode clamar a ambos, àqueles
que querem apenas se divertir ouvindo os sons dos prazeres físicos,
ou àqueles que libertaram seus espíritos de desejos egoístas.
Você pode aceitar isso de acordo com a capacidade de sua mente. Como
Rumi afirma:
a) "Estou desolado com todo tipo de companhia e procuro igualmente,
tanto o feliz quanto o infeliz."
b) Aqui denomina-se feliz aquele que é sensível ao Amor
Divino, e infeliz aquele que é desprovido da Dádiva Divina,
do verdadeiro amor, porque ele é prisioneiro de modelos e formas.
Como pessoas que tentam avaliar sua personalidade pela aparência
externa. Eles' dificilmente se preocupam em descobrir sua existência
interior.
"De acordo com a capacidade de compreensão de cada um, todos se tornam meus amigos, e muitos não se importam em compreender meu interior oculto."
a) "Meu segredo não está longe de meus lamentos, mas
os olhos e ouvidos físicos não possuem luz para enxergá-
lo."
b) Yunus Emre – um poeta Turco contemporâneo de Rumi expressa
o mesmo fato em duas palavras: "Bir bem vardi bende, benden içeru
= Existe um segredo no meu interior". É este segredo que o
homem deve tentar seguir dentro de si mesmo e dos outros. Quando você
é capaz de segui-lo, consegue encontrar a porta principal para a
Origem. Portanto, seu corpo sem asas, como uma gota de orvalho, se transforma
em um peixe feliz, que nadando alcança o Oceano.
Um grupo fanático em torno de Rumi não pôde compreender
a mudança experimentada por ele, depois que conheceu o mestre
espiritual Shems-i Tebrizi. Além disso, eles olhavam com desdém
os dervishes que giravam ao som da Ney. Para essas pessoas Rumi disse:
a) "O sopro dentro da Ney não é puro ar, é o
fogo do amor; e aquele que não carrega esse fogo deixa de existir."
b) Naturalmente, sempre que você descobre a luz interior que
conduz em direção ao Amado, o som da Ney o remete a Ele,
e Seu sopro (a gota de Seu Espírito) o deixa queimando por dentro;
ele é a vida real e aquele que nunca provou semelhante vida
deveria morrer (matar sua voracidade egoísta). Talvez
assim conseguisse ter a maravilhosa experiência de vivência
espiritual e libertar-se de seu túmulo (o corpo) .
Rumi continua:
a) "Nenhum véu esconde o corpo do espírito, nem o espírito
do corpo. E todavia, homem algum jamais viu um espírito."
b) Muitos falharam ao tentar descobrir o segredo da Ney. O segredo
de suas saudades. Como muitos falharam em sentir seus espíritos
que são tão próximos de si mesmo. Qualquer coisa assim
tão próxima do homem é imperceptível, como
as lágrimas nos olhos. Al-Qur’an diz que Alláh está
tão perto de você quanto as suas jugulares. Isso talvez seja
o motivo de nós não conseguirmos vê-Lo claramente.
Como nos seis volumes do Masnavi, a idéia principal dos primeiros
dezoito versos é que o amor a Alláh e suas saudades é
o que causam motivação em toda existência.
a) "É o fogo do amor que inspirou a Ney, é a saudade
do amor que fez o vinho fermentar."
b) A fermentação do vinho, a vibração de
instrumentos musicais ou a energia dos animais e plantas, são devido
à atração secreta do Amor Divino. Portanto, porque
o homem continua inativo e tolo?
"A Ney é amiga de qualquer um que já se abandonou,
suas notas musicais rasgam nossos véus."
E:
a) "Quem já viu veneno e antídoto como a Ney? Quem
já viu consolador e amante saudoso como a Ney?"
b) A Ney é o antídoto para consolar um amante e induz
a doce melodia do Amado Saudoso; ainda, é o veneno, pois incrementa
o sentimento da separação. Como consolador é um bom
amigo, mas quando faz alguém chorar pelo envenenamento de
seu ego e o queima por dentro com o amor de Alláh, isto tem o efeito
do ácido no corpo físico.
Rumi nos relembra que o verdadeiro amante tem que sacrificar seus desejos
e egoísmo, devotando-se ao amor como Majnun o fez por Leyla.
a) "A Ney conta sobre o perigoso e sangrento caminho e está
narrando histórias de Majnun (que sacrificou-se por sua amada Leyla)."
b) Se alguém invoca estar em amor com Alláh, então
terá que prová-lo pondo seu ego, inteligência egoísta
e preconceitos de lado, e terá que render-se ao Intelecto Universal
(Sabedoria Divina).
Assim, uma vez entregue com sinceridade ao Amor Divino, o medo da morte
ou de momentos perigosos não o incomodarão jamais.
a) "Ninguém senão aquele que abandonou seus sentimentos
carnais pode compreender a história da Ney. Os seus são
os únicos ouvidos que podem receber o idioma expressado."
b) Assim, tente obter ouvidos espirituais para compreender as palavras
da Ney, e deixe seus próprios julgamentos de lado, pois seus sentidos
parciais não são capazes de entender os Segredos Divinos.
Seu intelecto astuto pode ser ilusório.
a) "Em sofrimento nossos dias passaram, e tornaram-se companheiros
caminhantes de nosso pesar."
b) Embora a vida comece a evaporar-se, não se preocupe. Enquanto
o Amor esteja com você, será livre do conceito de tempo e
espaço.
Rumi acrescenta :
a) " Se os dias esvaem-se não importa, mas que Oh! O Puro
(Amor de Alláh) esteja conosco."
b) Amor é como dinheiro eterno. Dias e fortunas são transitórios,
mas o amor é sua verdadeira moeda corrente para o outro mundo. Então,
porque preocupar-se com o tempo, se tem o amor de Alláh em
suas mãos? Quando a morte chegar, é o amor que nos
irá salvar do medo. Apaixonado por Alláh, o homem se preocupa
sim, espiritualmente; e nenhum infortúnio o incomoda. Ele parece
um peixe feliz no mar Divino. Assim, Rumi continua:
a) "Assim como o peixe é saciado com água, todo aquele
que não é provido com recompensa diária não
consegue passar seus dias com felicidade."
b) "Um homem sem recompensa diária" aqui significa quem não
tem dinheiro em suas mãos, isto é, desprovido do Amor Divino.
Ele é infeliz e miserável, assim como um homem sem trabalho
ou sem o pão diário. Seu tempo não passará,
mas aquele que tem o Amor de Alláh é como um peixe feliz,
cuidado e protegido pelo Oceano.
Muitos falharam ao julgar o estado transcendental de Rumi, que o guiou
para a música, dança e poesia. Esses muçulmanos fanáticos
recusavam tudo que não fosse a leitura superficial do Al-Qur’an
e os Ahadith. Dirigido a eles, Rumi diz:
"Visto que o homem imaturo é incapaz de entender o estado
de um homem maduro (pronto), é melhor encurtar uma estória
longa dizendo adeus."
Em certa oportunidade, Mevlana Shaykh Nazim Al-Haqqanî an-Naqshbandi,
nosso mestre, manteve o seguinte diálogo com um jornalista:
Jornalista: "Mevlana Jalal ud-Din Rumi introduziu a prática
de giros com acompanhamento de flauta e tambor. Alguns dizem que isto também
era uma forma de oração."
Shaykh Nazim: "Sim, mas você deve saber que Mevlana Rumi não
girava da maneira como as pessoas o fazem agora. Não. Quando ele
e seus dervishes giravam, deixavam o chão e podiam ser vistos suspensos
entre o Céu e a Terra, girando no ar, como Anjos. Este é
o verdadeiro giro daquele que está praticando tanto com seu corpo
quanto com seu coração. Mas aqueles cujos corações
não estão purificados, continuam amarrados à Terra
e giram como querem. Quando Mevlana Rumi deixou o chão, foi um importante
sinal de que havia aperfeiçoado a prática interna. Mas até
é bom imitá-lo apenas fisicamente, já que se a pessoa
imita durante tempo suficiente gente tão admirável, finalmente
também alcançará suas estações (espirituais)".