O HOMEM INSTRUÍDO ESTÁ VIVO, E O IGNORANTE MORTO
 
(Nasir-i Khusraw, O Livro Reunindo as Duas Sabedorias)
 
Tradução: André Sena
 

Dísticos 75-82

Busca e escreve; então, novamente, lê e questiona; em seguida, aprende; finalmente sabe, e semeia em teu coração!

A preza do leão são as cabras; a da pantera é a gazela; conhecimento e sabedoria são as prezas do homem sensato.

Pois assim se diz: um homem sábio, ainda que em seu túmulo, não está morto; já o ignorante, mesmo sentado em um trono é um cadáver.

Estarei em pleno júbilo, se aquele que prova a verdade e faz o chamado responder minhas perguntas.

Entretanto cale-se, todo aquele que não tendo aprendido, ignora os princípios; suas palavras, sem peso nem critério, não terão qualquer valor.

Oh Tu, que reinas sobre o destino. Tu, que és a Origem das coisas, através de nossa veneração e nosso respeito por Muhammad, o Eleito:

Liberta-nos - e a qualquer um que busque a gnose (ma'rifat) - dos grilhões da aflição, Oh Tu, o Clemente!

E aquele, que por suas más ações abate o inocente, atinge-o Senhor com tua maldição! Arruina-o!
 
Saber que o ignorante assemelha-se ao morto, e que em contrapartida, aquele que caminha da ignorância ao conhecimento é como o morto a quem a vida é restaurada; saber que a luz, na realidade é a Fé; que dúvidas e trevas, sem exceção, são sinônimos de ignorância e extravio, tais são os sinais pelos quais se distinguem os adeptos da casa do Profeta, que a paz esteja sobre ele!. Deus nos diz sob a forma de pergunta:

Desse versículo pode-se compreender que os fiéis são como seres viventes, e que em meio aos homens, eles se dirigem à luz do saber e da ciência; já os incrédulos são ignorantes em meio as trevas; como a ressurreição dos homens após a morte é uma promessa divina, a ressurreição da qual nos fala o versículo acima é a verdade original e absoluta. Consequentemente, aquele para quem Deus Altíssimo clama a ressurreição não está morto. Ele está vivo. E renascer desta forma para a vida é uma tarefa de todos os homens.

Dentre o conjunto de fiéis, os conformistas da letra possuem uma interpretação diferente deste versículo. Sobretudo no que se refere a identidade daquele que Deus Altíssimo pretende ressuscitar. Segundo alguns, trata-se do Profeta, (que Deus lhe confira bênçãos e salvação) que Deus reviveu através da luz da Revelação. Quanto à figura do cadáver impuro, engolido pelas trevas, dizem eles, trata-se dos idólatras.

Nossa intenção é demonstrar que tal ressurreição dos homens após a morte, pela mão de Deus, representa fundamentalmente a passagem da ignorância ao conhecimento. A figura do homem, tal como proposta nos dois últimos dísticos do poema – onde a imagem do sábio é associada ao vivo e a do ignorante ao morto – designa os peregrinos no caminho de Deus Altíssimo, ou seja, os adeptos da Ahl-e Ta’yid, aos quais a Inspiração divina auxilia, assim como os hermenêutas.