OH FILHO! (AYYUHA' L WALAD)
 

Imam Abu Hamid al-Ghazzali (1058-1111)


INTRODUÇÃO

Bismillah ar-Rahman ar-Rahym

    Na etapa final de sua vida, o iraniano de Tus, Abu Hamid Muhammad al Ghazzali (1058-1111) escreveu Ayyuha 'l-Walad. As poucas páginas desta obra encerram -na plenitude espiritual do autor-, a síntese do seu pensamento: a obra, 'amal, é superior à ciência, 'ilm.

    Pouco importa quem foi o discípulo que consultando-o estimulou ao mestre a que produzisse estas linhas tão importantes para o trabalho daqueles que se encaminham na senda (taríqat) do Tasawwuf (Sufismo). Nada de abstrações, são ferramentas para uso constante do murid (discípulo); para o dia-a-dia.

    Aquele buscador da Verdade inquerira al-Ghazzali -com quem aprendera e servira- sobre quais das ciências que estudara lhe seriam de proveito no sucessivo e lhe dariam satisfação no mundo futuro; para escolher umas, e abandonar outras, conforme o hadith do Profeta Muhammad (saws): "Oh Senhor ! Em Ti busco amparo contra a ciência inútil".

    O discípulo pedia direção e conselhos, e uma oração em forma de súplica (Du'a) (ver no final do texto) para avançar corretamente. E o Ayyuha'l Walad foi a resposta do Imám Ghazzali.

                                            Em Nome de Alláh, Clementíssimo, Misericordiosíssimo!

Louvado seja Alláh, Senhor dos Mundos! Aos piedosos, a recompensa! Benção e paz a Muhammad e a toda sua família!

    Oh filho e caro amigo! Que Alláh te outorgue longa vida em seu serviço e encaminha-te pela senda de seus Amigos!

    I.  Deves saber que as exortações correntes todas emanam da mina da Missão Profética que é al-Qur'an e a pauta dada pelo Profeta (saws). Se chegaram a teu conhecimento, que necessidade tens de meus conselhos? E se não, me diz: o que aprendestes durante todos estes anos passados?

    Filho: Uma das admoestações que deu o Profeta (saws) a seu povo reza assim: "Sinal de que se afastou Alláh de seu servidor é que este se ocupe no que não lhe importa". Efetivamente, quem deixa passar somente uma hora da sua vida ocupado em algo distinto ao serviço de Alláh para o que foi criado, merece que se lhe prolongue o pesadelo no Dia do Juízo. Porém, se ultrapassou os quarenta sem que suas boas obras pesem mais que as más, já pode se preparar ao fogo eterno. Com esta admoestação o discreto tem bastante.

    Filho: Dar conselho custa pouco; o que custa é recebê-los (e praticá-los). Efetivamente, amargam ao paladar de quem se deixa arrastar por seus apetites, já que as coisas que se lhe proibem são precisamente as que mimam seu coração. Isto que aplica-se fundamentalmente a quem se dedica exclusivamente à ciência especulativa formal, preocupado com as excelências de seu próprio espírito e com os homens mundanos. Este acredita que a ciência simplesmente lhe propiciará a libertação e a salvação (eterna), sem se lhe dar nada pelas obras. Tal é a atitude dos filósofos. Louvado seja Alláh! Não sabe esse ingênuo que se não age de acordo com a ciência que haja adquirido, essa mesma ciência será o argumento mais contundente contra ele no Dia do Juízo, conforme disse o Profeta (saws): "Mais duramente será castigado no Dia do Juízo a quem não lhe dera proveito a sua ciência diante de Alláh". É narrado que apareceu al-Djunaid (Abu 'l-Qasim; célebre Sufi de Baghdád; fez a peregrinação à Kaaba trinta vezes, sozinho e foi a pé. O chamavam Ta'ús ul-'Ulamá, "o pavão dos sábios", e foi o maior representante da denominada escola Sufi "sóbria"; morreu em 910) depois da morte e como lhe perguntaram que tal tinha ido, contestou: "Acabaram-se as frases sutís e as sugestões engenhosas (da teologia mística); o único de proveito foram as prostrações que fiz durante minhas vigílias noturnas".

    Filho: Não desdenhes as boas obras nem fiques vazio de graças espirituais. Entende bem que somente a ciência não alongará a mão (para te salvar). Um exemplo esclarecerá: Supõe que um homem valente e aguerrido, armado com dez espadas indianas e outros apetrechos, se vê atacado no deserto por um leão descomunal. Que te parece? O salvarão em tal situação as armas, se não as maneja e as esgrime? Pois tal é o caso de quem haja lido e tenha aprendido cem mil questõs científicas, se depois não age de acordo: não aproveitará mais que a prática. Outro exemplo: Um homem com febre e amarelado, cujo remédio é o oxymel (bebida composta de água, vinagre e mel) e o chá de cevada; claro que não curará senão o bebe, como disse o poeta:

                                                             Embora te sirvam mil odres de vinho
                                                              Não estarás ébrio enquanto não o bebas.
 

    (Filho: A ciência é a árvore e as obras seu fruto). Apesar de teres lido a ciência durante cem anos e reunido mil livros, somente com as obras te prepararás para solicitar a misericórdia do Altíssimo. (Diz o Senhor):  "Não tem o homem senão o que trabalha" (L, 39 ou 32), e "quem deseje encontrar ao Senhor, pratique as boas obras" e terá "uma recompensa conforme ao que  tenha merecido" (XVIII, 10), pois "os crentes que praticarem o bem, terão por abrigo os jardins do Paraíso, Onde morarão eternamente e não ansiarão por mudar de sorte" (XVIII, 107-108). (Acabarão mal)  "Salvo aqueles que se arrependerem , crerem e particarem o bem" (XIX, 60).

    Assim reza também o seguinte hadith: "O edifício do Islam descansa em cinco pilares, a saber, testemunhar que não há outro deus senão Alláh e que Muhammad (saws) é seu Enviado (Shahada); a oração canônica (Salat); a esmola de preceito (Zakat); o jejum (Sawmi) durante o mês de Ramadan e a peregrinação à casa de Alláh (Hadjdj), para quem tem possibilidade".

    (E este outro): "A fé (Imán) consiste em confessar de palavra, em afirmar com o coração e cumprir com os preceitos (do Islam)".

    Incontáveis são os argumentos em favor das obras. E embora seja verdade que o servo de Alláh obtém o Paraíso por graça e favor divinos, não é menos certo que se pressupõe certa preparação mediante a observância da Lei (Sharíat) e o serviço de Alláh, porque a misericórdia divina está sempre próxima dos que agem corretamente. E se alguém refuta que o Paraíso é alcançado apenas com fé, contestaremos-lhe: Sim, é verdade; mas, quando se chega? quantas e que empinadas encostas não teremos que escalar antes de chegar ao Paraíso! E antes de tudo, precisamente a da fé. Efetivamente, quem está seguro contra a apostasia? E ainda quando chegássemos ao Paraíso somente com a fé, quem afirma que não se sentirá defraudado? Disse Hasan de Basra (Nasceu em Medina em 642, este que é tido como um dos maiores Awliya dos primórdios do Islam; morreu em 728) : "No Dia do Juízo dirá o Senhor aos seus servos: "Entrem servidores meus ao Paraíso pela minha misericórdia e participem dele conforme vossas obras."

    Filho: Enquanto não trabalhes não terás salário. Conta-se que um homem filho de Israel, servira a Alláh durante setenta anos. Querendo Alláh dar-lhe a conhecer aos anjos, enviou um deles com o recado de que a pesar de todo seu serviço, não era digno de entrar no Paraíso. Quando isto escutou o servo de Alláh, respondeu: "Para servir Alláh fomos criados e por isso devemos serví-lo." Quando o anjo regressou, disse: "Ó Alláh! Vós sabeis melhor que ninguém o que vosso servo disse." Contestando o Senhor: "Já que ele não se afastou de nosso serviço, tampouco nos afastaremos dele em misericórdia. Sejam testemunhas, anjos meus, de que lhe são perdoados seus pecados."

    Diz o Enviado de Alláh (saws): "Peçam conta a vocês mesmos antes que lhes sejam pedidas e pesem vossas ações antes que lhes sejam pesadas no Dia do Juízo." Dizia 'Ali ibn Abu Talib (as): "Quem pense chegar ao Paraíso sem se esforçar, esse homem é apenas de desejos, e quem pense chegar pelas suas próprias forças, presume de si mesmo, sem contar com a graça divina." E Hassan de Basra: "Aspirar ao Paraíso sem as boas obras é um dos tantos pecados." E também: "Sinal de estar no justo é afastar os olhos das próprias obras, porém sem descuidar as obras." Dizia o Enviado de Alláh (saws): "Sensato é aquele que age com a mira posta no que lhe aguarda depois da morte; nécio, aquele que se deixa levar pelas paixões confiando no perdão de Alláh."

    Filho: Quantas noites passastes em claro, empenhando-te no estudo da ciência, lendo livros e privando-te do sono! Não sei o que te inclinou àquilo. Se tua intenção era ser uma pessoa renombrada no (este) mundo, fazer acúmulo de suas vaidades ou alcançar altos cargos rivalizando em prestígio com teus iguais e semelhantes, ai de ti! ai de ti mais uma e outra vez! Mas se o que pretendias era fazer reviver na tua alma a Lei do Profeta, reformar teus costumes e ter controlados teus maus institntos, então mil e mil bem-aventuranças! Com razão disse o poeta:

                                     "A vigília dos olhos, abertos para ver a outro que ti, é perdida,
                                      E as lágrimas derramadas pela ausência de quem não és tu, são vãs."

    Filho: Vive quanto queiras, que ao final morrerás; ama o que queiras, que acharás teu merecido.

    Filho: O que ganhas com estudar Teologia, as Controvérsias, a Medicina, a Poesia e as coleções poéticas, a Astronomia, a Métrica, a Sintaxe e a Morfologia? O que ganhas senão perder a vida ocupado no que desagrada ao Altíssimo? Recordo ter lido no Evangelho estas palavras de Issa (Jesus, as): "Desde o instante em que se coloca ao morto no ataúde até que o colocam a beira do sepulcro, exige-lhe sua Divina Majestade severas contas, fazendo-lhe quarenta perguntas, a primeira das quais é esta: Servo meu! Muitos anos procuraste parecer bom aos olhos dos homes e nem sequer uma hora reservaste de parecer bom aos meus. Diariamente olhava eu teu coração e te dizia: "O que não fazes por (agradar) aos outros, estando como estás envolvido nos meus favores? Mas estavas surdo e não ouvias."

    Filho: A ciência sem a prática é loucura, e a prática sem a ciência (isto é, rotineiramente, cegamente) é nula. Sabe que a ciência que hoje não te afaste dos pecados nem te induza à observação dos preceitos não te liberará do fogo do Inferno no dia de amanhã. Pois, se o dia de hoje não obras o bem, resgatando assim o tempo perdido nos dias passados, dirás amanhã, no Dia do Juízo: "Faze Senhor, que voltemos ao mundo e obremos o bem", e te será respondido: "Nécio, pois não vens agora de alí? (XXXII, 12).

    Filho: Ponha na mente o ideal, a concupiscência fora de combate e no corpo a mortificação, pois tua moradia será o sepulcro e os habitantes dos cemitérios te esperam, aguardando que a cada instante vás reunir-te com eles. Lembra bem de apresentar-te alí sem provisões para a viagem. Abu Bakr as-Siddiq (as) (O primeiro khalifa, após o Profeta Muhammad (sws)) dizia: "Estes corpos são como gaiolas de pássaros ou como estábulos de bestas." Pensa, pois, a qual dessas categorias pertences; se às aves das alturas, quando ouças o som dos atabaques: "Retorna a teu Senhor!" (LXXXIX, 27-30), elevarás o vôo até pousar nas mais altas torres do Paraíso. Sobre isto disse o Enviado de Alláh (saws): " Estremeceu o trono do Misericordioso quando da morte de Saad ibn Muadh (morreu em consequência das feridas que sofreu no  braço -uma flecha lhe cortou uma veia- na batalha do "Fosso", em Medina, contra os agressores mekkanos, no ano V da Hégira)". Mas se te contas entre as bestas, que Alláh te socorra!, que já disse o Senhor: "São como as bestas, quiçá pior" (VII, 179), e não esperes liberar-te de passar do rincão de tua casa aos cimos do fogo eterno. Conta-se de Hassan de Basra, que um dia lhe deram um copo de água fresca e que ao tomá-lo com a mão desmaiou e o copo caiu. Quando acordou lhe perguntaram: "O que foi isso, Abu Saíd?", e contestou: "Lembrei dos que estão no Inferno, de como se dirigem aos bem-aventurados do Paraíso suplicando-lhes: "Nos dem um pouco de água ou disso com que Alláh os agraciou".

    Filho: Se a ciência te fosse suficiente, sem ter necessidade das boas obras, seria coisa perdida e sem proveito o sermão divino no Dia do Juízo: "Há alguém que tenha rogado? Há alguém que haja pedido perdão de seus pecados? Há alguém que tenha se arrependido?" Narra-se que certo dia um grupo de Companheiros do Profeta (saws) mencionou na sua presença a Abdullah ibn Umar (filho de Umar ibn al-Khattab (as), o segundo dos quatro Khalifas Bem Guiados, e a ele se remontam numerosos Ahadith), e que o Profeta disse: "Que pérola de homem, se fizesse oração pela noite!". Outra vez disse a um de seus Companheiros: "Fulano, não durmas demais na noite, pois dormir muito deixa pobre ao dorminte para o Dia do Juízo."
(Sabyli al-Haqq)

    Filho: As palavras do al-Qur'an (XVII, 79) "E pratica, durante a noite, orações voluntárias", são uma ordem formal; e estas outras: "E, ao amanhecer, imploravam o perdão de suas faltas" (LI, 18) são uma louvação que Alláh lhes tributa, e estas: "E nas horas de vigília imploram o perdão a Alláh", uma menção honorífica. Dizia o Profeta (saws): "Três vozes são gratas a Alláh, o canto do galo, a voz de quem salmodia al-Qur'an e a dos que imploram perdão na madrugada". Sufyan ibn Sa'íd Thawrí (Naceu em 715 na cidade de Kufa, e morreu em 778, em Basra. Criador de uma escola de jurisprudência, exímio conhecedor das Tradições, é considerado pela vida simples que levou um dos Amigos de Alláh, Waly) dizia: "Alláh criou um vento que sopra ao amanhecer levando à presença do Rei soberano as plegárias e pedidos de perdão". E também, "Quando às primeiras horas da noite ecoa um pregão de baixo do trono divino: " Não  levantarão os devotos?", levantam-se estes e ficam em oração quanto agrade ao Senhor; depois se escuta outro pregão à meia-noite: "Não se levantarão os piedosos adoradores?", e levantam estes e se põem em oração até a madrugada; quando está amanhecendo volta a ouvir-se: "Não se levantarão os penitentes?", e se levantam estes para pedir perdão; e, finalmente, já amanhecido, novamente um pregão: "Não se levantarão os negligentes?", e se levantam de seus leitos como ressuscitarão os mortos dos sepulcros."

    Filho: Entre as recomendações do sábio Luqman (XXXI) a seu filho, há a seguinte: "Meu filho, não seja o galo mais espevitado que tu, já que ele canta de madrugada enquanto ainda dormes". E certamente, que bem o diz o poeta!

                                                                 "Geme na noite escura uma pomba
                                                                 Pousada numa rama, enquanto durmo.
                                                                 Pela casa de Alláh! Mentira disse:
                                                                 Se namorado fosse, as pombas
                                                                 Não adiantariam-se a mim; e ainda pretendo
                                                                 Estar fora de mim de amor divino:
                                                                 Não choro eu e os animais choram!"

    Filho: A substância da ciência está em saber o que é a obediência e o que é serviço divino. Saiba, pois, que a obediência e o serviço divino resumem-se aos preceitos e proibições da Lei de Alláh, de palavra e de obra. Quero dizer que em tudo o que digas, faças ou omitas, tomes por norma a Lei; por exemplo, se jejuas o dia de festa (Aid al-Fitr, a festa que é realizada no fim do jejum do Ramadan), ou nos dias do Tashríq (11, 12 e 13 do mês islâmico Dhu'l-Hijjah; esses dias formam parte da Aidal-Adha, quando se sacrificam os animais ao final da Peregrinação à Ka'aba), delinques; o mesmo se fizeres oração com roupa roubada, pecarás aparentando devoção.

    Filho: É mister que tuas palavras e ações estejam de acordo com a Lei, pois a ciência, o mesmo que a prática, que não vá regulada pela Lei, é um extravio. Não convém que te deixes seduzir pelas locuções e frases peregrinas dos Sufis, pois este caminho espiritual é percorrido mediante a luta, a abnegação das paixões da alma e a mortificação da concupiscência com a espada da disciplina ascética, não com extravagâncias nem fúteis lorotas. Sabe que uma língua desatada e um coração endurecido, repleto de indolência e de paixões, são indícios de malícia; se, pois, não mortificas os apetites com sincero combate espiritual, não vivificarão teu coração os raios da ma'rifa(t) (gnóse) ou conhecimento (iluminativo) interior.

    Compreende que a algumas das perguntas que me diriges não se pode dar resposta adequada de palavra nem escrito, senão que as compreenderás quando te encontres em certa estação de vida espiritual (makam). Sem ela, é absurdo querer compreendê-las, pois são coisas que se relacionam com o gosto (al-dhawq); agora bem, o que se refere ao gosto é inútil querer descrevê-lo com palavras, como o doce e o amargo, que não se percebe senão saboreando-os. A este respeito conta-se que um impotente escreveu a um amigo seu: "Explica-me o deleite carnal", ao que este respondeu: "Fulano, até agora te sabia somente impotente, agora penso que também és estúpido; tal deleite é coisa do gosto, assim que se o experimentas o compreenderás, e se não, é  inútil querer explicar-te oralmente ou por escrito."

    Filho: algumas de tuas perguntas são deste estilo. Enquanto as outras, que podem ser respondidas, as tratei na minha obra "Vivificação das Ciências da Religião" (Ihyâ' 'ulum ad-din), e em outras; por agora me limitarei a breves indicações e sugestões. Quatro coisas se necessitam para andar pelo caminho espiritual:
   Primeira: Uma crença ortodoxa, sem mistura de novidades ou heresias.
   Segunda: Sincero arrependimento, evitando reincidir no pecado.
   Terceira: Dar satifação a teus contendentes, de maneira que nada possam já te reclamar com direito.
   Quarta: Aprender da Lei religiosa o indispensável para cumprir os preceitos divinos, e dos outros conhecimentos o necessário para a salvação. Conta-se que ash-Shiblî (Abu Bakr (Dulaf) ibn Giahdar; 861-945) esteve ao serviço de quatrocentos mestres de espírito e que dizia: "Depois de ter lido quatro mil ahadith, escolhi um deles e o coloquei em prática deixando de lado todos os outros, pois, meditando, ví que nele se cifrava minha saúde e minha libertação; efetivamente, a ciência toda dos antigos, nele se resumía. Aquí ele: Disse o Profeta (saws) a um de seus companheiros: "Consagra-te ao daquí conforme o tempo que viverás neste mundo, e ao do além em proporção com a vida futura; obra para Alláh de acordo a necessidade que d'Ele tens, e obra para o Inferno conforme a capacidade que tenhas para suportá-lo."

    Filho: Se sabes na prática este hadith, não terás necessidade de muita ciência. Medita também nestes outros exemplos. Hátim al-Asamm (grande mestre Sufi que se fingia de surdo; m.851) era dos discípulos de Sakîk al-Balhî (m.aproximadamente 815). E um dia este lhe perguntou: "O que sacaste dos trinta anos que viveste na minha companhía?" Respondendo Hátim: "Aprendí oito coisas úteis e não desejo mais ciência, pois delas espero minha saúde e minha libertação". Sakîk lhe disse: "Quais são?" E Hátim: "A primeira é que considerando as pessoas, ví que cada um tem seu amigo e querido, em quem põe seu coração; dos amigos, uns o acompanham até sua última enfermidade, outros até a beira da tumba; depois retornam deixando-o sozinho e abandonado sem que nenhum deles entre com ele no sepulcro. Então pensei e pensei e disse: E amigo mais fino será quem entre na tumba conosco e faça boa companhía; e achei que tais são unicamente as boas obras. Assim, pois, resolví tomá-las por amigos para que sirvam de lanterna no sepulcro, me façam boa companhia e não me deixem sozinho e desamparado.

    "A segunda coisa de proveito que aprendi é que vendo as pessoas irem atrás de suas paixões e se esforçarem para dar pasto a sua concupiscência, considerei as palavras do Senhor (LXXIX, 40-41): "Quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxúria, Terá o Paraíso por abrigo." Então ví com certeza que al-Qur'an é a pura verdade e corri a contrariar meus impulsos de concupiscência e me dispus a combatê-la, negando-lhe seus caprichos até que se rendeu e aceitou o jugo da obediência à Lei de Alláh. Louvado e Glorificado seja!

    "A terceira coisa de proveito é que ao ver todos sem exceção pugnar por acumular os bens da terra, agarrando-se bem a eles para que não lhes escapem das mãos, considerei as palavras do Senhor (XVI, 96):  "O que possuis é efêmero; por outra, o que Alláh possui é eterno.", e me desprendi de minhas posses terrenas repartíndo-as entre os pobres para que me convertessem de reserva na proximidade do Altíssimo.

    "A quarta coisa de proveito é que vendo como algumas pessoas põem toda sua nobreza e prestígio em ter multidão de chegados e parentes, do que vanamente se vangloriam, enquanto outros se ufanam em ter quantidade de riquezas e de filhos, do que se vangloriam, e de que outros ainda, tem como o máximo da honradez arrebatar os bens alheios violando a justiça e derramando sangue, e que outros, finalmente, creem que a nobreza e a glória consistem em gastar suas posses, em jogá-las fora esbanjando-as, considerei as palavras do Senhor (XLIX, 13): "Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Alláh, é o mais temente.", e optei pelo temor de Alláh, convencido de que al-Qur'an é a verdade pura e de que todas as opiniões e cálculos dessas pessoas são vans e deploráveis.

    "A quinta coisa de proveito é que tendo visto como as pessoas se censuram mutuamente e se denigram uns aos outros e que tudo isto provêm da inveja em matéria de riqueza, de status social e de saber, considerei as palavras do Senhor (XLIII, 42): "Certamente, sobre todos temos domínio absoluto.", e conclui que Alláh é quem tem feito as partes desde a eternidade, e não tenho porque invejar ninguém, senão me contentar com a partição de Alláh.

    "A sexta coisa de proveito é que quando ví como se inimizam os homens uns com os outros por fins e motivos diversos, considerei as palavras do Senhor (XXXV, 6): "Posto que Satanás é vosso inimigo, tratai-o pois, como inimigo", e deduzí que nenhuma inimizade é lícita senão a de Satanás.

    "A sétima coisa é que, como vi que cada um se desvive e põe extremado empenho em procurar-se o sustento e os meios de vida, coisa que o leva a cometer coisas de duvidosa moralidade e inclusive abertamente ilícitas, que o rebaixam e o desprestigíam, considerei as palavras do Senhor (II, 8): "Não há besta sobre a terra, cujo sustento não corra por conta de Alláh.", e entendí que meu sustento está em mãos de Alláh que o garante, e me entreguei, por tanto, a seu serviço sem ambicionar coisa alguma.

    "A oitava coisa de proveito é que uma vez que ví que todos, quem mais e quem menos, poem sua confiança em alguma coisa criada, alguns nas moedas de ouro e prata, os outros nas propriedades e posses, outros nas artes e ofícios, e outros finalmente em outra criatura qualquer semelhante a eles, considerei as palavras do Senhor (LXV, 3): "Quanto àquele que se encomendar a Alláh, saiba que Ele lhe será Suficiente, porque Alláh cumpre com o que promete. Certamente Alláh predestinou uma proporção para cada coisa.", e consequentemente depositei em Alláh minha confiança, pois "Ele me basta e é bom fiador (Hasbuna Llahu wa Ni'Amal Wakíl (III, 173) Al-Wakíl, "o Fiador", "o Guardião", é um dos 99 Noventa e Nove Mais Belos Nomes de Alláh)."

    Então Hakîk disse (a Hátim): "Bravo! Que Alláh te proteja! Eu lí a Torah, o Evangelho, os Salmos e al-Qur'an e achei que estes quatros livros giram em torno destes oito ensinamentos. Assim, quem os ponha em prática é como se praticara a doutrina destes quatro livros".

    IIFilho: Por estas duas passagens terá compreendido que não necessitas  acumular muita ciência. Agora vou te explicar o que necessita quem quer empreender o caminho da Verdade.

    Primeiro: A aquele lhe faz falta um mestre que o dirija e o eduque de tal maneira que vá desarraigando de sua alma os maus hábitos e plantando no seu lugar outros bons. A educação pode ser comparada com o labor do agricultor, que arranca os abrolhos e extirpa as hervas daninhas da sementeira para que cresça melhor e chegue a sazão. Assim pois, é indispensável ao aspirante (murid) um mestre que o discipline e o encaminhe à senda de Alláh. Com esse objetivo enviou Alláh a seu Profeta (saws), para que guiara aos homens a seu caminho. E ao sair deste mundo deixou o Profeta (saws) em seu lugar, como sucessores ou vigários seus aos Khulafa (sing. Khalifa. Eles foram: Abu Bakr as-Siddiq; Umar ibn al-Khattab; Uthman ibn 'Affan e Ali ibn Abi Talib) para que eles continuassem dirigindo-se ao Senhor. É mister que o mestre que fará as vezes de Profeta seja pessoa culta, embora não homem totalmente instruído é próprio para esta função. Por isso, vou te explicar em linhas gerais algumas de suas características, de maneira que qualquer um não possa presumir de guia espiritual.

    Digo, pois, que o será quem haja deixado de lado o amor pelo mundo e pela fama, e tenha se formado com algum mestre reconhecido, cujo ensinamento ascenda, em cadeia não interrompida, até o Senhor dos Profetas (saws); que tenha se disciplinado bem por meio da restrição em comer e beber, no pouco falar e dormir, na muita oração, jejum e esmola; que seguindo a dito mestre maduro tenha se fixado como regra a conduta dos hábitos louváveis, como a paciência, a oração, a
gratidão a Alláh, o abandono na sua providência, uma fé firme e viva, a tranquilidade, a paz da alma, a calma, a humildade, a ciência religiosa, a sinceridade, o pudor, a lealdade, a firmeza, o silêncio, o perdão,etc. Esse tal será um reflexo das luzes do Profeta (saws), e portanto, estará bem que seja imitado. Agora, um guia semelhante é mais raro de encontrar que o enxofre
vermelho (Em árabe, kibríyt ahmar.  No Sufismo, designa o Homem universal; quando alguém é especial é chamado de enxofre vermelho. Para o grande alquimista iraniano Aydamur Jaldakî, o enxofre vermelho é comparado à transubstanciação da alma pela ascese; é a matéria capaz de transformar a prata em ouro). Mas se alguém tem a sorte de dar com um mestre de espírito como o que acabamos de descrever e este o admite sob a sua direção, haverá de tê-lo interiormente em consideração e dar-lhe exteriormente mostras da mesma.

    Acerca da consideração externa, não discutirá com ele nem porá objeções a cada questão que se apresente, embora saiba que está equivocado; não abrirá seu tapete de oração diante dele senão durante a oração ritual, e o recolherá uma vez terminada aquela; não repetirá suas orações de pura devoção em presença do mestre, e ao contrário cumprirá os exercícios que ele lhe prescreva, enquanto esteja em sua mão e na medida do possível. Sobre a consideração interna, não desminta interiormente, de palavra ou de obra, o que tenha escutado e aprovado exteriormente a fim de que não se lhe possa chamar de hipócrita. Se não pode, abstenha-se algum tempo de frequentá-lo até que seu interior fique de acordo com seu exterior.

    Segundo: Deve o principiante cuidar-se de tratar com más companhias, jogando fora do recinto do seu coração toda familiaridade diabólica -com maus espíritos ou com demônios humanos-, e purgando-se assim de fama de cumplicidade na suas maldades.

    Terceiro: Sempre deverá preferir a pobreza à riqueza.

    III.  Tens que saber que o Sufismo (at-Tasawwuf), o caminho de perfeição, do que vamos tratando, se apoia em duas qualidades: a retidão para com Alláh e as boas disposições para com as criaturas. Quem é reto para com Alláh e utiliza boa maneira com os homens,  tratando-os com suavidade, esse é Sufi. A retidão para com Alláh consiste em sacrificar os próprios apetites aos verdadeiros interesses da alma. E o bom trato dos homens está em não trazê-los ao que a gente quer, senão em se acomodar a seus gostos, sempre que não se oponham à Lei de Alláh.

    Todavía consultaste acerca da submissão a Alláh. Três elementos a integram: 1) A permanência dos preceitos da Lei (Sharíat); 2) A conformidade com os decretos divinos, com a predestinação e a partilha que Alláh fez do seus dons, 3) A renúncia ao próprio desejo em gratidão ao beneplácito divino.

    Também me consultaste acerca do abandono (at-tawakul). Consiste este em ter uma fé inquebrantável nas promessas divinas, isto é, que creias que todo o que Alláh tenha disposto acerca de ti, se cumprirá impreterívelmente, embora todo o mundo busque impedí-lo; e que, pelo contrário, o que não esteja escrito para que te suceda, não te sucederá, ainda que todo o mundo fique de teu lado.

    Consultaste-me também acerca da sinceridade (ikhlâs) ou pureza de intenção. Consiste em que todas as tuas ações faça-as por Alláh, sem que teu coração descanse nas louvações dos homens nem te preocupes pelas suas censuras. Entende que a ostentação  nasce  do respeito humano, que consiste em dar importância às criaturas. Seu remédio está, assim, a olhar estas como sujeitas à onipotência divina e em considerá-las como seres inanimados, incapazes de nos causar satisfação ou incômodo. Desta maneira, te liberarás da ostentação; ao contrário, enquanto a creias dotada de algum poder ou vontade não andarás longe deste vício.

    Filho: As outras questões que me propussestes as tens em parte tratadas nos meus livros e neles as podes consultar. Algumas delas havería que evitá-las: age de acordo com o que sabes e te será revelado o que ainda não sabes.

    Filho: No sucessivo não me consultes sobre tuas dificuldades senão com a língua do coração, pois disse o Senhor (XLIX, 5): "Mas, se aguardassem pacientemente, até que tu saísses ao seu encontro, seria muito melhor para eles." Que é o conselho que Khidr (as) dá ao Profeta Moisés (as): "Não me perguntes nada,  até que eu te faça menção a isso." (XVIII, 70). Não tenhas pressa, aguarda o momento oportuno em que se te revele e o verás, como disse o Senhor (XXI, 37): "Não vos apresseis, pois logo vos mostrarei os Meus sinais." De forma que não perguntes antes do tempo, e tenhas certeza que não chegarás ao fim senão caminhando, como disse o Senhor no al-Qur'an (XII, 109): "não percorreram a terra para observar qual foi o destino dos seus antecessores?".

    Filho: Se caminhas, a fé que vês maravilha em cada uma das etapas da senda espiritual. Aplica generosamente teu espírito a esta empresa, pois o êxito depende dessa entrega generosa. Neste sentido dizia Dhu'n-Nún al-Misrí (Egípcio que nasceu em 796 e morreu no Cairo, em 861. Sufi, alquimista e taumaturgo, conhecia os segredos dos ieroglíficos egípcios. A noite de sua morte, setenta pessoas revelaram que viram (essa noite) o Profeta Muhammad (saws) dizer: "Estou aqui para reencontrar Dhu'n-Nún, o Amigo de Alláh" ) a um de seus discípulos: Se és capaz de entregar sem reserva teu espírito, segue-me; senão, não te ocupes nas ninharias dos Sufis.

    IV.  Filho: Vou encomendar-te oito coisas. Recebe-as de mim para que a ciência não venha a ser teu adversário no Dia do Juízo. Destas oito coisas, quatro deves praticar, e as outras quatro evitar. As que deves evitar são:
Primeira: Não discutas com ninguém  acerca de questão alguma, enquanto de ti dependa, pois em discutir há não poucos inconvenientes; a discussão acarreta mais danos que vantagens, já que é um manancial de vícios, como a ostentação, a inveja, o orgulho, a aversão, as inimizades, a rivalidade e outras. Claro está que se surge alguma questão entre ti e algum indivíduo ou grupo e desejas unicamente que se esclareça a verdade em lugar de que fique desaproveitada, nesse caso não haverá inconveniente em discutir e examinar a questão; mas então dois serão os indícios de tua retidão de intenção: o primeiro, que te seja indiferente que a verdade saia à luz de teus lábios ou de qualquer um; o segundo, que aprecies mais discutir em privado que em público.

    E agora  escuta, que devo te fazer uma advertência: Entende bem que consultar nossas dúvidas é como expor ao médico a doença que sofre o coração, assim como a resposta equivale ao esforço que põe o médico para curar a enfermidade de seu cliente. E note que os ignorantes são os que tem enfermo o coração, enquanto os médicos são os sábios. Meio sábio não acerta curar, como nem sequer um sábio consumado cura toda classe de enfermos, senão somente aos que se espera aproveitem o tratamento e que sarem; que em caso de doença crônica e incurável a perícia do médico consistirá em dizer-se: "Isto não tem remédio, assim que não te esforces em medicá-lo, pois passarias a vida à toa." Tem presente também que a enfermidade da ignorância é de quatro classes, uma delas, susceptível de cura, as três restantes não.
A primeira das três doenças incuráveis é a de quem consulta ou propõe dificuldades por motivo de inveja ou de ódio. Embora lhe dês a melhor resposta do mundo, a mais clara e correta, não conseguirás mais que exacerbar seu ódio, sua inimizade e inveja. Com um sujeito semelhante, o único procedimento é não contestar-lhe, pois como disse o poeta:

                                                      Qualquer inimizade pode-se esperar que cese
                                                         Menos a de quem por inveja é teu inimigo.

    Afasta-te portanto dele e deixa-o com sua enfermidade. Que já o disse o Senhor (LIII, 29): "Afasta-te pois, de quem desdenha a Nossa Mensagem e não ambiciona senão a vida terrena." O invejoso, com todo o que diz e faz, pega fogo ao semeado de suas próprias ações. A inveja devora as boas obras, como o fogo consome a lenha.

    A segunda enfermidade da ignorância que não admite cura é a necedade, como disse Jesus (as): "Nunca fui incapaz de ressuscitar aos mortos, porém o fui para curar aos nécios." O nécio de que se trata aqui é o homem que dedica um pouco de tempo ao estudo da ciência, que aprende algo das ciências racionais e reveladas e logo se põe a consultar e argumentar neciamente ao sábio completo que encaneceu no estudo dessas ciências; esse necio, como ao mesmo tempo é ignorante, imagina que onde ele encontra dificuldades, também as encontrará o sábio consumado. Como não sabe apreciar estas diferenças, pergunta por necedade; assim que não há que incomodar-se em responder-lhe.

    A terceira enfermidade incurável em matéria de ignorância é a de quem vai realmente em busca de direção ou instrução e  cada vez que não entende os ensinamentos dos grandes mestres, critica sua própria estreitez de entendimento. Pergunta sim, com o fim de evoluir, mas como é tonto, não alcança compreender a realidade das coisas; assim que também a este não há que preocupar-se em responder-lhe. Já disse o Profeta (saws): "Nós, os Profetas, temos ordem de Alláh de falar a cada tipo de pessoa de acordo a sua capacidade."

    Finalmente, a enfermidade da ignorância que admite cura é a do discípulo inteligente e capaz, que não está dominado pela inveja e o ódio nem pelo amor das paixões, da fama ou do dinheiro, que busca o caminho reto e não pergunta por emulação ou por espírito de contradição nem por vontade de por a prova a seu mestre. Esta enfermidade sim que admite cura e, portanto, está bem responder suas perguntas; ou melhor, há obrigação de responder.

    A segunda coisa que deves pensar bem é de exercer a profissão de predicar ou admoestar, pois nisso há muitos incovenientes, a menos que ponhas em prática o que predicas antes de predicar aos demais. Considera bem o que foi dito a Jesus (as) (Lucas IV, 23: "Médico, cura-te a ti mesmo"): "Oh filho de Maria! Admoesta-te a ti mesmo e quando hajas aplicado a admoestação a ti mesmo, admoesta aos outros. Caso contrário, fica com vergonha de teu Senhor." Mas, se não podes esquivar tal profissão, cuida-te de dois defeitos: O primeiro é a afetação na fala, com discursos cheios de expressões de retórica, de simbolismo e frasseologia mística, de versos e estrofas, que Alláh detesta aos amaneirados; além do mais, que o enfeite que passa dos limites é sinal de descontrole interior e de frivolidade do coração.

    A prédica salutar consiste em trazer à memória o fogo eterno e as deficiências do homem no serviço a Alláh; em fazer refletir sobre a vida passada, gasta em coisas sem proveito para a alma, e sobre os percalços a que se pode ver exposto o homem, como é o perigo de não conservar até o fim a integridade da fé; o comportamento ao ficar nas mãos dos anjos da morte, como terá de ser engenhoso no interrogatório dos anjos Múnkar e Nakir (as para os dois); em preocupar-se com a situação em que se encontrará no Dia do Juízo com todos os seus lances, a saber, se conseguirá cruzar são e salvo a ponte as-sirat ou se pelo contrário, cairá no abismo do inferno (as sirat, a ponte que segundo o hadith "é mais fina que um cabelo e mais filosa que uma espada"); em gravar profundamente estas coisas no coração, impressionando-o e tumultuando sua falsa tranquilidade.

    A ebulição que produz na alma a ardência destas lembranças, com os gemidos que provocam tais calamidades, é o que se chama propriamente prédica. E o instruir às pessoas fazendo-lhes presentes estas coisas, chamando-lhes a atenção sobre suas deficiências e seus excessos, pondo diante de seus olhos seus próprios defeitos, de forma que o auditório saiba por dizer assim  a queimação destas idéias e fique comovido diante da perspectiva de tais calamidades, para consertar no possível a vida passada, lamentando os dias perdidos em coisas alheias ao serviço de Alláh: tudo isto junto, apresentado desta maneira, é o que se chama predicar. Um exemplo: Se notasses que a crescida do rio estava invadindo a casa de teu vizinho e visses que estava dentro com toda sua família, lhe gritarias: Cuidado! Cuidado! Fujam da crescida! Ou terias vontade, nessa situação tão delicada, de informar ao dono da casa com frases rebuscadas, ditados criativos e imagens alegóricas? Nem passaria pela tua cabeça. Pois este é o caso do predicador; e assim mesmo deve evitar a linguagem amaneirada.

    A outra barreira que tens de esquivar é a vontade de ver muito concorridos os teus sermões, e que os ouvintes manifestem sua emoção rasgando suas vestes dizendo: " Que magnífico sermão!". Tudo isto é amor do mundo, que nasce da leviandade. Teu único empenho e preocupação deve ser o de levar as pessoas das coisas do mundo às do além, da vida torta ao serviço de Alláh, da cobiça à austeridade, da avareza à generosidade, do extravio à piedade; fazer-lhes amáveis as coisas do céu e odiosas as do mundo; ensinar-lhes a ciência do serviço de Alláh e da abnegação, já que a inclinação natural os leva regularmente a se desviarem do caminho da Lei, a seguir o que não é bom aos olhos divinos e a enredar-se nos maus hábitos. Portanto, procura infundir nos corações um saudável temor, atemoriza-os e previne-os contra os graves perigos que os ameaçam. Dessa forma, pode ser que modifiquem suas disposições internas e se reforme sua conduta externa e que comecem a mostrar desejo e inclinação pela virtude e retraimento do vício.

    Esta é a boa maneira de predicar e de exortar. Qualquer outro gênero de prédica é uma calamidade para o ouvinte e para quem predica. Há mais: alguém disse que o mal predicador é um gul (Monstro anstropófago que adota diversas formas e se apresenta aos andarilhos noturnos como companheiros de caminho) ou monstro e um demônio que desvia as pessoas do bom caminho levando-as à perdição. Por isso, os fiéis devem fugir de semelhante predicador, pois o dano espiritual que infere às almas excede tudo o que o mesmo demônio é capaz de tramar. Por isso, mesmo quem tenha autoridade e poder para isso deve afastar dos púlpitos esses predicadores, impedindo-lhes que continuem em seu empenho, com o que não fazem mais que cumprir o preceito do zelo religioso, que obriga a fomentar o bem e combater o mal.

    A terceira coisa que tens de evitar é misturar-te com príncipes e sultões, inclusive vê-los, porque há grandes inconvenientes em vê-los, tratá-los e se dar com eles. Mas caso tenhas necessidade, cuida-te de louvá-los e lisonjeá-los, pois abomina os elogios que se tributam ao malvado e ao tirano, e quem faz votos para que se lhes prolongue a vida, deseja implicitamente que Alláh seja ofendido por eles na terra.

    A quarta coisa que tens de evitar é aceitar doação ou presente algum de príncipes, embora esteja certo de que são coisas bem adquiridas, pois a cobiça de tais doações é uma ruína para o espírito, já que gera a falsa lisonja, a obsequiosidade e a conivência com suas injustiças, tudo o que corrompe a moral. O mal menor que pode acarretar isso é que aceitando seus brindes e aproveitando-te de seus presentes, acabarás amando-os; agora bem, quem ama alguém lhe deseja vida longa e duradoura; mas desejar vida longa ao injusto é desejar que se perpetue a injustiça em prejuízo dos sábios de Alláh, e com ela, a ruína do mundo. Pois bem, que coisa mais prejudicial que isto para a religião e para o além? Cuidado! Cuidado com deixar-te fascinar pela ilusões diabólicas nem pelos que te digam que é melhor e que vale mais receber dos tiranos o ouro e a prata para distribuí-los entre os pobres e necessitados, já que aqueles os gastam em seus vícios e pecados e tu em câmbio lhe dás melhor destino empregando-o em socorrer aos indigentes.  Porque o Maldito fez sucumbir a muitos com estas armadilhas, como já o dizemos no "Vivificação das Ciências da Religião", que podes consultar.

    Com relação às quatro coisas que deves observar:

    Primeira: Deves trazer-te para com Alláh tal linha de conduta que, se a tivesse contigo um servo teu, te deixaria satisfeito sem ocasionar-te pena nem raiva. Pois bem, o tratamento que não gostarias de receber de teu servo -que finalmente não é servo teu, pois és criatura como ele- não deves gostar de dar tu mesmo a Alláh, que é teu verdadeiro Senhor.

    Segunda: Tudo o que tenhas que fazer aos homens, faze-o como gostarias que o fizessem a ti, que não será cumprida a fé do servo de Alláh enquanto não desejes para os outros o que desejas para si mesmo.

    Terceira: toda ciência que leias ou estudes deve ser tal que contribua para melhorar teu coração e para purificar tua alma. Precisamente, se soubesses que somente ficava a ti uma semana de vida, não a empregarias em estudar o Direito, nem a Moral, nem a Teologia fundamental (a kalam) ou a Escolástica nem coisas deste estilo, sabendo que de nada te serviria tudo isto. O que farias seria esforçar-te em vigiar teu coração, em descobrir tuas disposições interiores, em desfazer-te das coisas do mundo, em purgar a alma dos maus hábitos, consagrando-te exclusivamente ao amor e ao serviço de Alláh. Pois bem, não passa nenhum dia sequer, nem uma única noite, em que não possa surpreender ao homem a morte.

    Filho: Escuta outra coisa que vou te dizer e medita-a bem, que nisso está a salvação. Suponha que te anunciam que dentro de uma semana te vás a visitar o sultão: estou certo de que porias todo teu empenho em arrumar todas as tuas coisas, a roupa, tua aparência, a casa, o enxoval, etc., sobre as que soubesses que poria os olhos o Sultão. Reflete, pois, bem no que acabo de indicar-te, já que és inteligente e que "ao bom entendedor poucas palavras". Disse o Profeta (saws): "Não olha Alláh a vossa aparência nem as vossas ações, senão ao coração e à intenção". Se desejas conhecer a ciência dos estados do coração, podes consultar a Vivificação e outras de minhas obras. O conhecimento desta ciência é um dever individual (Há os preceitos individuais, fard al-'ain, ou coletivos, fard al-kifâya), que obriga a todos e a cada um dos homens, enquanto as outras ciências são obrigatórias somente comuniatariamente (isto é, em cada comunidade tem que existir alguém que as conheça) excetuando o estritamente necessário para cumprir os deveres religiosos (que são obrigatórios para todos). Que Alláh te ajude a adquirir esse conhecimento!

    Quarta: Não acumules mais bens terrenos do que baste para passar um ano, conforme o exemplo do Profeta (saws) que ao prover a algumas de suas esposas dizia: "Oh Alláh! outorga o sustento suficiente à família de Muhammad". Porém não provia desta maneira a todas, senão únicamente às que sabia que tinham frágil o coração (isto é, que não tinham certeza da Providência); às que tinham fé firme e viva, não lhes provia mais que o sustento necessário para um dia ou para meio.

    Filho: Compilei nestas a resposta a tuas consultas. Convém, pois, que atues de acordo e que, assim o fazendo, não esqueças de ter-me presente nas tuas orações. Enquanto à oração que me pedias, busca-as entre os (ahadith) bem creditados; e em todas as horas, especialmente ao terminar tua oração ritual, recita esta súplica (Du'a)

    Oh Alláh! Rogamos nos outorgues, da graça a perfeição, e da imunidade (do mal e do pecado) a duração; de tua msericórdia a extensão, e da saúde da alma a consecussão; do sustento a maior facilidade, e da vida a maior felicidade; de teus benefícios o que nos corresponda, e de teus favores o mais universal; a mais sutil de tuas bondades, a mais delicada de tua benignidade. Oh Alláh! Seja por nós e não contra nós. Oh Alláh! Sela o fim de nossa vida com felicidade e colma nossas esperanças em abundância; junta nossos dias e nossas noites em saúde e faça com que alcancemos a meta de tua piedade; derrama  as torrentes do perdão sobre nosso pecado e nos ajuda a desencaminhar o mal andado; dá-nos por viático a piedade, faça-nos pela religião aspirar, em ti aguardar e confiar. Oh Alláh! Confirma-nos na boa senda e livra-nos das torturas do remorço o dia vindeiro; alivia-nos a pesada carga dos pecados e nutre-nos com o manjar dos justificados; dá-nos a suficiência e desvia de nós a malícia dos malvados; do fogo do inferno resgata-nos, a nossos pais e mães, irmãs e irmãos. Por tua Misericórdia, Oh Potente (Ya-Azýz !) e Perdoador (Ya Ghaffar!) , Oh Generoso (Ya Karym !) e Encobredor (dos pecados) (Ya Sattar !), Oh Sapiente (Ya Aliym) e Dominador (Ya Djabbar !) Oh Alláh, Oh Alláh, Oh Alláh! Por tua misericórdia, Oh o mais Piedoso (Ya Rahman !) dos compasivos! Oh o Primeiro (Ya Awwal !) dos primeiros, e o Último (Ya Akhir !) dos últimos! Oh Tu, que possuis a força inquebrantável (Ya Qawy !)! Oh o Piedoso dos indigentes, o Mais Piedoso (Ya Rahym)  dos compassivos! Não há outro deus senão Tu. Glória a Ti! Me confesso por um dos iníquos.

    Abençõe Alláh a Muhammad, nosso Senhor, a sua Família e a todos os seus Companheiros. Glória a Alláh, o Senhor dos Mundos!