A LUA E O SOL

Disse um dia a lua: "Por amor ao sol, inundarei o mundo de luz".
Responderam-lhe: "Se és sincera, haverás de evoluir noite e dia,
Até que estejas em conjunção com ele; então, perder-te-ás nele e te farás invisível.
Te consumirás no ardor de seus raios e te humilharás diante de sua elevação;
Logo, saindo de seus raios, tua beleza maravilhará as criaturas; com o olhar fixo em teu rosto, indicar-te-ão com o dedo".
Qual é, então, esse mistério? A lua, após perder-se no sol, reaparece fora de seus raios;
Errante aceita a aniquilação, despreocupada de si mesma, se oferece à vista do globo terrestre, que sempre se apega a seu próprio Eu.
Tem se consumido para o sol, tem encontrado o amado após a separação.
A lua cheia da décima quarta noite, apesar de todo o seu esplendor, não se compara ao menor dos crentes.
A lua cheia ostenta a sua beleza, e como é vaidosa, ninguém a busca.
Mas quando, na fase crescente, a lua está bem fina, todos põem-se a buscá-la, com um sorriso nos lábios.
Permanecer aprisionado ao próprio Eu é perpetuar a própria desgraça.
 

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)
 

 

SALOMÃO E A FORMIGA ENAMORADA

Caminhando, magnífico e nobre, passava Salomão em um lugar ao longe, diante de um formigueiro.
Todas as formigas aproximaram-se para mostrar-lhe sua submissão; em uma hora havia milhares delas.
Apenas uma não se apressou a vir, pois havia diante de seu ninho um montículo de areia cujos grãos contava um a um para fazê-lo desaparecer.
Salomão a fez chamar e disse: "Formiga, não tens aspecto de ter grande resistência nem força;
E nem com a longevidade de Noé e a paciência de Jó poderias levar a cabo o trabalho que tens empreendido.
Se sai dos limites de tuas forças; nunca poderias fazer desaparecer esse montículo de areia".
A formiga, soltando a lingua, disse: "Grande rei, nesta via não se pode avançar senão com magnanimidade!"
Uma formiga, depois de me haver aprisionado na armadilha de seu amor, ocultou-se de minha vista dizendo-me:
"Se destroes esse monte de areia e deixas livre o caminho, farei desaparecer o grande obstáculo que nos separa e aceitarei tua companhia.
Então, me dediquei a este trabalho, sem pensar em outra coisa que em mover a areia.
Se a faço desaparecer, poderei aspirar à união com minha amada.
E se hei de perder a vida no cumprimento desta obra, não terei sido nem jactanciosa nem mentirosa".
Amigo, aprende de uma formiga o que é a força do amor; aprende de um cego o segredo da visão.
Ainda que a formiga esteja destinada ao infortúnio, é um servo no Caminho.
 

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)
 
 
O SÁBIO DE GORGÁN E A GATA

Havia um grande sábio que vivia em Gorgán. Tinha em sua casa uma gata que o queria muito. Estava sempre junto a ele, e se não, se acocorava no tapete de oração. Ia livremente à cozinha, pois sabiam que nunca tocava em nada, contentando-se com o que lhe davam.
Pois bem, um dia ao entardecer, foi à cozinha e roubou um pedaço de carne da panela. O servo do sábio se deu conta do ocorrido e lhe bateu. A gata, magoada, colocou-se em um canto demonstrando seu descontentamento. O sábio perguntou pela gata a seu servo, que contou-lhe o que aconteceu. Então, chamou a gata e disse-lhe: "Por que fizeste isso?"
A gata foi-se e retornou por tres vezes, trazendo seus gatinhos recem nascidos. Colocou-os aos pés do sábio, e triste refugiou-se em uma árvore, abrindo os olhos bem grandes e guardando silêncio.
O sábio dirigiu-se aos que o rodeavam, dizendo-lhes:
"O delito desta gata é perdoável, pois não cometeu-o pensando em si mesma. Sua conduta não tem nada de surpreendente, pois o amor materno é algo prodigioso. Enquanto não se tem filhos, não se pode compreender essa solicitude."
Logo, disse ao servo: "Este pobre animal, privado da palavra, certamente sofreu muito. Peça-lhe perdão, e sua ira desaparecerá".
Coisa que o servo fez, mas sem êxito. O sábio, por sua vez, falou-lhe, rogando-lhe que descesse da árvore. Em seguida, a gata desceu e acocorou-se a seus pés.
"Todos os assistentes deram razão ao pobre animal e aderiram a gratidão daquele doce ser.
Ainda que tenhas laços para encher cem mundos, nunca igualar-se-ão ao de um único filho. O único acima desse apego pelo filho é Allah, o Puro, o Incomparável".
 

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)