Disse um dia a lua: "Por amor ao sol, inundarei o mundo de luz".
Responderam-lhe: "Se és sincera, haverás de evoluir
noite e dia,
Até que estejas em conjunção com ele; então,
perder-te-ás nele e te farás invisível.
Te consumirás no ardor de seus raios e te humilharás
diante de sua elevação;
Logo, saindo de seus raios, tua beleza maravilhará as criaturas;
com o olhar fixo em teu rosto, indicar-te-ão com o dedo".
Qual é, então, esse mistério? A lua, após
perder-se no sol, reaparece fora de seus raios;
Errante aceita a aniquilação, despreocupada de si mesma,
se oferece à vista do globo terrestre, que sempre se apega a seu
próprio Eu.
Tem se consumido para o sol, tem encontrado o amado após a separação.
A lua cheia da décima quarta noite, apesar de todo o seu esplendor,
não se compara ao menor dos crentes.
A lua cheia ostenta a sua beleza, e como é vaidosa, ninguém
a busca.
Mas quando, na fase crescente, a lua está bem fina, todos põem-se
a buscá-la, com um sorriso nos lábios.
Permanecer aprisionado ao próprio Eu é perpetuar a própria
desgraça.
Caminhando, magnífico e nobre, passava Salomão em um lugar
ao longe, diante de um formigueiro.
Todas as formigas aproximaram-se para mostrar-lhe sua submissão;
em uma hora havia milhares delas.
Apenas uma não se apressou a vir, pois havia diante de seu ninho
um montículo de areia cujos grãos contava um a um para fazê-lo
desaparecer.
Salomão a fez chamar e disse: "Formiga, não tens aspecto
de ter grande resistência nem força;
E nem com a longevidade de Noé e a paciência de Jó
poderias levar a cabo o trabalho que tens empreendido.
Se sai dos limites de tuas forças; nunca poderias fazer desaparecer
esse montículo de areia".
A formiga, soltando a lingua, disse: "Grande rei, nesta via não
se pode avançar senão com magnanimidade!"
Uma formiga, depois de me haver aprisionado na armadilha de seu amor,
ocultou-se de minha vista dizendo-me:
"Se destroes esse monte de areia e deixas livre o caminho, farei
desaparecer o grande obstáculo que nos separa e aceitarei tua companhia.
Então, me dediquei a este trabalho, sem pensar em outra coisa
que em mover a areia.
Se a faço desaparecer, poderei aspirar à união
com minha amada.
E se hei de perder a vida no cumprimento desta obra, não
terei sido nem jactanciosa nem mentirosa".
Amigo, aprende de uma formiga o que é a força do amor;
aprende de um cego o segredo da visão.
Ainda que a formiga esteja destinada ao infortúnio, é
um servo no Caminho.
Havia um grande sábio que vivia em Gorgán. Tinha em sua
casa uma gata que o queria muito. Estava sempre junto a ele, e se não,
se acocorava no tapete de oração. Ia livremente à
cozinha, pois sabiam que nunca tocava em nada, contentando-se com o que
lhe davam.
Pois bem, um dia ao entardecer, foi à cozinha e roubou um pedaço
de carne da panela. O servo do sábio se deu conta do ocorrido e
lhe bateu. A gata, magoada, colocou-se em um canto demonstrando seu descontentamento.
O sábio perguntou pela gata a seu servo, que contou-lhe o que aconteceu.
Então, chamou a gata e disse-lhe: "Por que fizeste isso?"
A gata foi-se e retornou por tres vezes, trazendo seus gatinhos recem
nascidos. Colocou-os aos pés do sábio, e triste refugiou-se
em uma árvore, abrindo os olhos bem grandes e guardando silêncio.
O sábio dirigiu-se aos que o rodeavam, dizendo-lhes:
"O delito desta gata é perdoável, pois não
cometeu-o pensando em si mesma. Sua conduta não tem nada de surpreendente,
pois o amor materno é algo prodigioso. Enquanto não se tem
filhos, não se pode compreender essa solicitude."
Logo, disse ao servo: "Este pobre animal, privado da palavra, certamente
sofreu muito. Peça-lhe perdão, e sua ira desaparecerá".
Coisa que o servo fez, mas sem êxito. O sábio, por sua
vez, falou-lhe, rogando-lhe que descesse da árvore. Em seguida,
a gata desceu e acocorou-se a seus pés.
"Todos os assistentes deram razão ao pobre animal e aderiram
a gratidão daquele doce ser.
Ainda que tenhas laços para encher cem mundos, nunca igualar-se-ão
ao de um único filho. O único acima desse apego pelo filho
é Allah, o Puro, o Incomparável".