Duas raposas encontraram-se e passaram a compartilhar a mesma comida. Juntas experimentaram tal deleite que um forte apego surgiu entre elas. Um rei que caçava na planície com suas panteras e falcões separou essas duas raposas. A fêmea perguntou então ao macho: "Ó caçador de tocas! quando nos encontraremos de novo?" Ele respondeu, enquanto abandonavam seu esconderijo: "Minha cara, se nos encontrarmos novamente será no peleteiro da cidade, pendurados numa estola".
A ARANHA
"Não viste a impaciente aranha e como ela passa caprichosamente
o seu tempo? Tecendo com avidez uma rede maravilhosa, veste um canto com
sua armadilha e espera que caia nela uma mosca. Precavidamente constrói
sua hábil casa, que abastece com provisões para seu uso.
Quando a mosca precipita-se de cabeça para baixo em sua teia, a
aranha sai de seu esconderijo e suga o magro sangue do pobre bicho. Depois,
no mesmo lugar, deixa secar o cadáver tomando-o como alimento
ainda por algum tempo. Um dia o dono da casa levanta-se, escova à
mão, e num instante acaba com essa trama, varrendo mosca, teia e
aranha para fora de sua sala.
Assim é o mundo, e o que o alimenta é a mosca apanhada
pelas sutilezas da aranha. A teia é o mundo, e a mosca a substância
que Alláh colocou aí para o homem. Ainda que o mundo inteiro
te estivesse destinado, tu o perderias num instante".
A FÊNIX
Na Índia vive um pássaro que é único: a
encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro,
perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não
tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura
em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo
particular, sutil e profundo. Quando ela faz ouvir essas notas plangentes,
os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram
em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio
aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de
mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente
aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo,
e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em
meio a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite
é uma evidência de sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga
dor da morte penetra seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos
os pássaros e animais são atraídos por seu canto,
que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se
para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com
o coração ensanguentado diante da fênix, por causa
da tristeza de que a veem presa. É um dia extraordinário:
alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda
morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro
de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento
produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente
para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro
tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira
foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix
desperta do leito de cinzas.
Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da
morte? Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a
da fênix, terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.
A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento
e na dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços
com ninguém neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade
e, ao final de sua vida, quando teve de deixar de existir, lançou
suas cinzas ao vento, a fim de que saibas que ninguém pode escapar
à morte, não importa que astúcia empregue. Em todo
o mundo não há ninguém que não morra. Sabe,
pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver
com ela, e embora muitas provações caiam sobre nós,
a morte permanece a mais dura prova que o Caminho nos exigirá".