Dois irmãos compraram um par de calçados e combinaram usá-los alternadamente. Mas quando chegaram em casa o irmão mais novo afirmou querer usá-los durante o dia. O irmão mais velho ficou muito aborrecido porque só poderia usar os sapatos à noite, o que o impediria de dormir. Os sapatos logo se gastaram. Disse o irmão mais novo: "Vamos comprar outro par". O irmão mais velho respondeu: "Chega de sapatos. Prefiro dormir à noite".

                                                (O Correio da UNESCO, no. 6, Junho de 1976)
 
 

                                                    HISTÓRIA DE UMA GOTA DE CHUVA

    Uma gota de chuva caiu de uma nuvem de primavera e, vendo a grande extensão do mar, sentiu vergonha. "Onde está o mar e onde estou eu?", refletiu. "Comparada com ele, na verdade, eu não existo". Enquanto se julgava assim, com desdém, uma ostra a tomou em seu regaço e o Destino lhe deu forma em sua trajetória de maneira que uma gota de chuva se converteu, finalmente, em uma famosa pérola real.
    Foi exaltada porque foi humilde. Chamando à porta da extinção, tornou-se existente.

                                                (Saadi de Shiraz, Al-Bustan)
 
 
 
                                                                    O CREDOR E A VISTA

    Um quitandeiro tinha um aprendiz que, por ser vesgo, via tudo duplo. Certo dia, o quitandeiro lhe disse: "Quero que vás ao depósito e tragas a jarra de azeite que está na estante". O aprendiz foi e retornou dizendo: "Há duas jarras, qual trago?"
    O quitandeiro enfadou-se e disse com sarcasmo: "Rompa uma e traga a outra!"
    O aprendiz fez o ordenado, mas quando rompeu uma, a outra desapareceu.

                                                                                            (Farid ud-Din Attar)
 
 
 
                                                                PENSANDO NO SULTÃO

    O sultão Harun ar-Rashyd perguntou a Bohlul (o louco): "Em que ocasiões pensas em mim?"
    Bohlul respondeu-lhe: "Sempre que esqueço Alláh, me lembro de ti".

                                                                                                    (Farid ud-Din Attar)
 
 
 
                                                                            ARBÍTRIO

    Um derviche foi a uma quitanda e pediu alguma coisa. O quiitandeiro disse: "Nada tenho agora".
    O derviche foi embora.
    Perguntei ao quitandeiro: "Por que não lhe destes alguma coisa?"
    Ele respondeu: "Não estava destinado por Alláh que recebesse alguma coisa".
    Eu disse: "Alláh o destinou, mas você não permitiu que acontecesse. Se tivesses posto tua mão na caixa e a caixa te houvesse agarrado ou a tivesse machucado, de maneira que não pudesses colher o que procuravas, então dirias que Alláh não o queria."

                                                                                                                                                    (Shams de Tabriz)