A ANCIÃ DE CORAÇÃO QUEIMADO

Um dia, no mercado de Bagdá, instalou-se um incêndio violento. Todos se puseram a gritar. O fogo provocou um enlouquecimento como no Juizo final.
Uma anciã aflita, bastão na mão, chegava não se sabe de onde. Alguém lhe disse: "Estás louca, não sigas, tua casa incendiou-se".
"Cala-te", respondeu ela, "Tu estás mais louco do que eu. Alláh nunca fará arder minha casa".
Extinguido o fogo, viram que muitas casas haviam queimado, mas a casa da senhora estava intacta.
Perguntaram-lhe: "Anciã, como sabias que seria assim?"
Ela humildemente respondeu: "Eu sabia que o fogo consumiria ou minha casa ou meu coração.
Mas Alláh, que já queimou meu coração na provação, não permitiria que minha casa também ardesse"

 
   (Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)
 
 
 
CINZAS SOBRE A CABEÇA DE UM HOMEM CÉLEBRE

A correção dos costumes. Conta-se que Al-Rabi al-Djizi, companheiro do Imam Al-Shaf'i (fundador do rito jurídico shafi'ita, um dos quatro ritos ortodoxos do Islam. Morreu no Egito em 204 Hégira/819 d.C.) - que Alláh o tenha em sua estima - passeava um dia pelas ruas do Cairo. Uma caixa cheia de cinzas foi esvaziada sobre sua cabeça. Desceu de sua montadura e começou a limpar suas roupas. Perguntaram-lhe:
- Não estás aborrecido?
Respondeu:
- Aquele que merece o fogo do inferno e em lugar deste fogo recebe cinzas, não tem porque encolerizar-se.
Morreu no ano 250 da Hégira (864 d.C.)

                                                                                                     (Ahmad al-Qalyûbî, O Fantástico e o Cotidiano)
 
 
 
 O QUE DIFERENCIA UM SUFI DE UM ERUDITO

Ao começo do Império Otomano, havia um sultão que se interessava pelas Turuq (pl. de Tariqa) e certo dia, perguntou a seu vizir: "Qual é a diferença entre uma pessoa culta ou erudita, e o Povo do Caminho?"
"Sua Majestade - respondeu o funcionário - caso aceites, esta noite podemos ir a um lugar onde a diferença ficará muito clara."
Horas depois, trocaram seus trajes e aparentando ser pessoas comuns, foram a uma casa-grande onde havia uma reunião da qual participavam como convidados homens cultos e pessoas da Tariqa. Ingressaram e se acomodaram num canto. Então entrou uma pessoa a quem o vizir perguntou: "Oh nosso mestre!, quem aqui é o primeiro dos eruditos?" Recebendo como resposta "Não sabes quem sou eu, para me fazer esta pergunta; eu sou o primeiro". Depois, apareceu um segundo, e o vizir o interrogou da mesma maneira. Enfurecido, o homem culto berrou: "Que pergunta é essa? Não sabes quem sou eu? Sou o primeiro, o melhor!"
Todos os eruditos diziam ser o primeiro, o mais importante nesse encontro. E usavam enormes turbantes.
Mais tarde começou a chegar o povo das Turuq. O vizir se aproximava e dizia: "As salaam alaykum, oh meu irmão, oh shaykh Naqshbandi! Dentre os presentes, quem é o shaykh mais importante da Tariqa?" E escutou: "Está vindo atrás de mim".
O que veio depois  acrescentou: "O irmão que vem em seguida". Os que chegaram,  quarenta no total, responderam: "Vem atrás de mim". E o último afirmou: "Eles acabam de passar".
Então o sultão concluiu: "Os primeiros são os eruditos, e estes últimos são os da Tariqa, que treinam seus egos aplicando enxertos para mudar más características por boas".

 
(Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband, O Caminho Naqshbandi)