A PEREGRINAÇÃO

Um dia, quando o Shaykh Abd Allah Mubarak (736-798) encontrava-se em Makka, viu em sonhos dois anjos descerem dos céus, perguntando-se quantos peregrinos haviam acudido aquele ano: "Seiscentos mil", disse um deles. "E quantos há cuja peregrinação tenha sido aceita?" "Nem um sequer", respondeu o outro anjo. "Entretanto, acrescentou, há em Damasco um sapateiro chamado Ali ibn Mufiq, que não efetuou a peregrinação em pessoa; pois bem, sua peregrinação foi aceita e lhe foi concedida a graça dos seiscentos mil peregrinos".

Quando despertou, o shaykh decidiu ir à Damasco conhecer aquele sapateiro. Finalmente o encontrou e lhe contou seu sonho.

Era um ancião que, ao ouvir aquele relato, começou a chorar. Contou que trinta anos antes, após haver poupado, a custa de grandes penas, trezentas e cinquenta moedas de ouro para ir a Makka, soube que seus vizinhos passavam fome. Então, entregou-lhes a soma dizendo-lhes: "Tomem o dinheiro para atender a vossos gastos, esta será a minha peregrinação".

 
(Farid ud-Din Attar, O Memorial dos Santos)
 
 
 
SHIBLÍ E O PADEIRO

Um padeiro havia ouvido falar do célebre Abu Bakr al- Shiblí e desejava ardentemente conhecê-lo. Um dia, Shiblí foi a sua padaria e, sem esconder-se, pegou um pão. O padeiro, que nunca o havia visto, avançou sobre ele, tomou-lhe o pão das mãos, dizendo-lhe: "Vá, mendigo, meu pão não é para ti". Shiblí se foi. Então, alguém disse ao padeiro: "Não sabes que este homem é Shiblí? Como lhe negas o pão?" Morto de vergonha, o padeiro correu atrás de Shiblí, o alcançou e jogando-se a seus pés pediu-lhe mil desculpas. Shiblí disse-lhe: "Se queres ser perdoado, prepare um banquete para amanhã, e chame muitos convidados".

O padeiro apressou-se a armar uma festa suntuosa, convidando grande número de pessoas e anunciando a presença de Shiblí. Quando este chegou, todos sentaram-se para comer.

Um homem piedoso perguntou-lhe: "Como se pode discernir entre um homem bom e um homem mau?" Shiblí respondeu: "Se queres ver a um homem mau, olha nosso anfitrião: por mim, gastou cem moedas de ouro; por Alláh, não queria dar um pão. Ao invés de entregar-se a gastos de loucura para um homem célebre, mais lhe valeria dar um pão com doçura a um mendigo. Parecer homem generoso não é nada; o que conta é a pureza da intenção".

 
(Farid ud-Din Attar, O Livro divino)