
Um sufi, vestido com seu manto de lã burda, passava
por uma rua. Bateu num cachorro com sua bengala, rompendo-lhe uma patinha.
O animal saiu uivando e foi aninhar-se aos pés do sábio
Abu Saaid, pedindo justiça.
O sábio disse ao sufi: ‘Como te permitistes fazer tanto dano
a este pobre ser?"
Respondeu o sufi: "Oh sábio, a culpa foi do cachorro, não
minha! Se bati nele, foi porque manchou-me a roupa."
O cachorro, porém, gemia cada vez mais.
Disse-lhe o sábio: "Em compensação, o que posso
te dar para diminuir tua dor? Se não queres que eu assuma a culpa
desse sufi, farei castigá-lo para que tenhas justiça."
"Oh sábio sem igual - respondeu o cão - ao
vê-lo vestindo o manto sufi, tive confiança nele. Jamais imaginaria
que fosse me machucar. Sem o manto, o teria evitado. Esse foi meu erro.
Se queres castigá-lo, tira-lhe a roupa reservada aos justos, para
que ninguém mais se engane com sua aparência."
Disse o Profeta (s.a w.): "Havia uma mulher de costumes depravados,
pecadora impúdica, manchada.
Certo dia atravessando o campo, viu um cão ofegando de sede,
com a língua de fora, à borda de um poço.
Com grande ternura, renunciou ao que iria fazer.
Usando seu sapato por cubo e sua capa por corda, colheu água
e lhe deu de beber. Por esta boa obra, Alláh a exaltou em ambos
os mundos.
Na noite de minha ascensão, a vi, bela como a lua, morando
no paraíso".
Uma mulher depravada recebeu de Alláh tão grande recompensa
por ter dado de beber a um cachorro.
Se, por um instante, consolas o coração alheio, teu reconhecimento
será maior que os dois mundos.
Perguntaram a Shiblí: "quem foi o primeiro a guiar teus passos
no caminho do umbral divino?"
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água
morrendo de sede. Quando mirava a superfície da água, via
seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de outro animal;
diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a
paciência; de um salto se jogou na água, e no mesmo instante,
o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos,
se esfumou entre ele e seu desejo, aquele obstáculo que não
era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava
diante de mim; sem dúvida alguma, quem foi assim aniquilado não
foi outro senão meu eu. Desta maneira fui salvo; meu primeiro guia
no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo
que te impede avançar é o teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus
pés. Se sentes a necessidade constante de Sua presença embriagadora,
nunca voltes a ti. Esse é todo o vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação
de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an, XXIV, 35).