
Carta de Sarah Poulton
Kalley, narrando a visita do Imperador D. Pedro II
Carta
escrita por Sarah Poulton Kalley a seu pai, no dia 7 de março de 1860.
Sarah,
esposa de Robert Reid Kalley, fundador da primeira Igreja Evangélica em língua
portuguesa neste país, está falando de sua vida aqui, e de uma visita inesperada!
A carta faz parte do acervo histórico da Igreja Evangélica Fluminense.
"Meu
esposo está muito doente; Dr. Lee, o médico
inglês mais conhecido do Rio de Janeiro está aqui de visita em
Petrópolis - é a primeira vez em 30 anos que ele sai do Rio de
Janeiro! A doença atingiu seu ponto alto no período do Carnaval,
quando todos os católicos romanos vão confessar seus pecados.
Roberto diz que, na Ilha da Madeira, sempre houve confusão nesta época...
Além do mais, o Núncio(1) e sua comitiva
de padres também estão em
Petrópolis.
Bem, morreu uma das pacientes de Roberto,
uma senhora idosa que não quis se submeter a uma cirurgia que salvasse
a sua vida. O esposo um velhinho, veio buscar o atestado de óbito que
Roberto, com certa dificuldade, assinou. Escolhendo justamente os dias da doença
de Roberto - ele não podia ir até lá para argüi-las
- as autoridades voltaram a insistir que Roberto não é médico,
e recusaram liberar o corpo para o sepultamento. O velhinho voltou para nossa
casa, e Roberto (ele passou bem mal depois) se levantou da cama e escreveu um
depoimento. Pensávamos que isso bastasse, pois não ouvimos mais
nada; tudo bem.
No outro dia, porém o velhinho
retornou, e me disse que, após levarem o caixão para o mortuário(2),
eles o abriram para examinar o corpo, alegando que Roberto não é
médico coisa alguma. De fato, não chegaram a fazer o tal exame,
mas o coitado do velhinho ficou tão sensibilizado, tão machucado.
Eu nada disse a Roberto, visto que nessa altura ele nada podia fazer: só
fiquei para consolar o velhinho da melhor maneira possível, e insistindo
com ele que me trouxesse todos os nomes das pessoas envolvidas.
E não é que, alguns poucos
dias depois, morreu mais uma paciente, uma outra velhinha, que, há muito
tempo, estava sendo tratada de hidropisia(3). Roberto
deu o atestado de óbito - e aconteceu a mesma coisa! Prontamente eu mandei
buscar o Sr. Carpenter(4) e ele veio na hora, levou o
diploma de Roberto, e arrasou com o Inspetor que assinou que assinou os documentos,
mas que nada mais é do que instrumento nas mãos do subdelegado,
que, por sua vez, suponho eu, ser católico romano fervoroso e instrumento
nas mãos dos padres. Mas conseguimos resolver tudo sem que os pobres
sentissem que seus mortos fossem insultados... Resolvemos tudo no domingo, 26
de fevereiro.
Porém, na terça-feira,
dia 28, e antes das 8 da manhã (passei boa parte da noite acordada por
causa de Roberto, para cuidar dele), eu estava me arrumando, ajeitando meu cabelo,
quando escuto um homem correndo e dizendo: "Como?" Era alguém
avisando que Dom Pedro II queria falar com Roberto! "Impossível",
eu respondi. "Ele não vai mandar um mensageiro desses."
Nesta altura Marianne(5)
voltou para dizer que o Imperador estava subindo a ruazinha que leva
à nossa casa! Eu lhe disse que ela mandasse Jacinto às pressas
para dizer que Roberto estava muito doente, de cama, e que, não fosse
isso, iria atendê-lo prontamente. Continuei a me arrumar, mas fiquei tão
nervosa!
Dois minutos depois alguém vem
correndo - é Marianne gritando, - "Sra., por favor. O Imperador
está aqui - ele está na varanda."
Corri para me vestir e me aprontar,
e em dois ou três minutos marianne voltou, escancarando a porta do quarto.
Escutei os passos de um homem, entrando em casa. Mais três minutos, e
lá estou eu, na sala, não muito bem arrumada, devo dizer, mas
perfeitamente calma - aparentemente! Nós duas fizemos uma reverência
profunda. (Havia um senhor com ele, um camareiro que trabalha em sua casa).
O Imperador fez um levíssimo gesto, como se estivesse me oferecendo sua
mão para eu beijá-la. Mas eu sei que as inglesas não fazem
isso, e eu também não o fiz.
Então eu lhe disse mais ou menos
assim: "Meu esposo está muito doente, acamado mesmo, e é
impossível que ele tenha a honra de receber..." E me veio aquela
dúvida... "O que é que eu digo agora? "Vossa Majestade"
ou "Vossa Alteza Imperial"? Na dúvida eu disse somente "o
senhor", e nada mais. Temo que tenha sido muito mal-educada! Mas eu não
tinha como fazer. Se eu pudesse ter me lembrado do português, eu teria
sabido o que dizer, mas a gente nem sempre consegue pensar nestes momentos -
quando a gente quer.
Ele parou por um momento antes de responder
e, depois, falou num inglês perfeito... Ai! Ai! como eu fiquei nervosa,
pensando naquilo que ele ia dizer - e naquilo que eu talvez dissesse para ele
- e naquilo que Roberto estava pensando, ali no quarto, deitado, escutando tudo
que se passava!
Disse ele: "Eu tenho ouvido que
seu esposo tem... (o quê)... viajado muito, e eu queria falar com ele
acerca de suas viagens."
Papai, o senhor consegue imaginar como
dentro de meu coração, eu suspirei, aliviada, naquele momento?
Eu disse não sei o quê... algo sobre Roberto e o prazer que ele
teria, caso estivesse com saúde... E nós duas nos curvamos perante
ele de novo. Com isso, Sua Majestade volveu-se para os quadros, aquarelas, na
parede da sala - de fato, ele estava examinando-os quando eu entrei na sala.
São aqueles quadros pintados pelo Sr. Woolnooth - e ele perguntou de
onde eram, e o nome do artista daquele quadro da planície de Babbicombe,
e com lindas cores do mar.
Ele perguntou: "Tem um álbum
das viagens de seu esposo?"
Eu disse que não, mas depois
lembrei que algumas pessoas importantes daqui tinham visto algo, e que talvez
tivessem mencionado tal coisa... então abri o baú para tirar os
álbuns. Mas Sua Majestade fez isso para mim, com aquela cotesia de cavalheiro.
Ele os abriu e disse: "Tenho este livro. Seu esposo não tem nada
escrito, nada publicado sobre suas viagens?"
Claro que eu disse que não,
e dentro de poucos minutos, ele pegou seu chapéu, repetimos nossas reverências,
e ele se foi! O camareiro não gostou da conversa ter sido em inglês
e murmurou duas vezes: "Fale português", mas o Imperador não
lhe prestou a mínima atenção.
Roberto, coitado - suas dores haviam
piorado - perguntou "Você tem certeza que não foi um sonho,
pois minha cabeça está doendo tanto?" De fato, parecia muito
mais com sonho do que realidade. Depois Marianne me contou de sua entrevista
com o Imperador, e deve ter sido bem engraçada. A noção
que ela tem de mostrar respeito é simplesmente repetir "Senhora"
ou "Senhor" a cada três palavras - e foi só o que ela
fez na ocasião(6).
Ontem, o dia 6 de março, terça-feira
de novo... Esta vez, eu é que estou de cama, quando, na mesma hora, escuto
os cachorros latindo, e Marianne entra.
"Minha senhora, por favor, o Imperador
está aqui de novo - ele diz que Dr. Kalley falou que contaria para ele
de suas viagens - e que ele vai dar uma volta pelo jardim até que o Sr.
Kalley vote(7)."
"Mande Manoel falar com ele,"
etc. etc. etc... E, finalmente, quase meia hora depois, Roberto voltou. O Imperador
o saudou, dizendo que estimava suas melhoras e etc., Roberto beijou-lhe a mão,
e os dois entraram. Eles falaram em português, e eu escutei o Imperador
dizendo, "os livros estão aqui", enquanto apontava para o baú.
Roberto pensa que o próprio Imperador tirou um dos volumes do baú.
Depois eles gastaram entre uma hora e meia a duas horas conversando de maneira
bem agradável - sobre a Palestina. Roberto deu-lhe uma das medalhas,
e eu o ouvi dizer: "mas onde está o papel no qual estava embrulhada?
Ele colocou-a no bolso na hora! Nós não conseguimos pensar que
ele ia sugerir que talvez fosse bom Roberto voltar a viajar - mas não
houve nenhuma palavra a respeito.
Quando Roberto foi buscar uma Bíblia
em português para explicar algo sobre um dos lugares mencionados, ele
pensou que Sua Majestade e o camareiro olharam um para o outro (foi um camareiro
diferente - eles mudam de escala a cada semana), mas ficou só naquilo.
Tudo foi mais do que bem educado, foi amigável até.
No mês passado nós estávamos
na dúvida se devíamos fazer uma visita formal ao Sr. William Christie(8)...
Agora estamos achando que vamos ter que fazer uma visita ao Palácio!
Roberto, pelo menos, deve (grifo dela) - e ele pensa que eu também
vou ter que ir. Quanto a isso, nós iremos nos informar, e eu não
vou de maneira nenhuma a não ser que o respeito e a etiqueta exijam minha
presença.
Mas parece que o episódio está
nos ajudando a decidir que iremos permanecer aqui, pois, como diz o Sr. Morritt
- um inglês que é muito inglês (pena que ele não seja
crente) - que está bem animado com tudo isso: "Agora nosso médico
inglês vai poder ir onde quiser e fazer o que quiser e nenhum padre ou
suboficial ousará levantar a mão ou falar palavra alguma."
É claro, se esta é de
fato a única razão destas visitas - embora a gente ainda não
consiga acreditar que elas podem ser só de paz e não de guerra
- é claro que todas as famílias brasileiras terão muito
prazer em ser conhecidas do Roberto. E, ainda, talvez nossa mudança para
uma outra casa nos coloque em contato com muito mais pessoas do que aqui neste
cantinho calmo, neste outeiro de paz!
Tradução feita por Joyce Clayton
Doutora em Teologia - Professora do Seminário
Teológico Congregacional do Recife - PE
Texto extraído da Revista
Vida Cristã - Ano 45 nº 181 out/nov/dez 1998
NOTAS
1. Isto é, o Núncio papal (Embaixador
do Papa junto a um governo estrangeiro).
2. Local onde os crentes eram sepultados,
por não terem acesso aos cemitérios.
3. Doença decorrente do acúmulo
de líquido em alguma cavidade do corpo ou em algum tecido.
4. Um conhecido oficial inglês que
morava em Petrópolis.
5. Marianne Pitt, uma inglesa que trabalhou
com o casal Kalley durante 36 anos.
6. Esta visita do Imperador
foi observada por inimigos de Kalley que deduziram que o Imperador havia proibido
as reuniões do missionário. No dia 1º de março de
1860 Kalley escreveu para o Imperador, agradecendo "a honra tão
bondosamente conferida... etc".
7. Kalley tinha ido ver alguém sobre
a possibilidade de alugar uma outra casa, pois eles tinham que sair do Gernheim.
8. Outro oficial do governo inglês,
residente em Petrópolis.
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